segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Escreves para mim, sem saberes

Pergunto-me o que fazes aí enquanto eu, sem saberes, espero por ti. Sei, por já te ler tão bem, que te sentes feliz. Talvez feliz seja demais. Já muito se passou desde que morrias aqui. Já muito cresceste desde que não sabias que chão pisar. Hoje sei que te sentes feliz aí, mas que deixaste muito aqui. Deixaste que as coisas, que as pessoas se tornassem importantes. Como eu espero, sem saberes, ser importante para ti. Deixaste-as fazerem parte de ti e agora não sabes o que é mais certo sentir. Por isso sei que te sentes bem, que te sentes em casa, mas que não deixas de pensar na vida a que te permitiste deste lado do mundo. Sei que o dia em que tiveres que escolher te consome. Sei, como ninguém, que estás tão longe de decidir. E espero, sem saberes, quando esse dia chegar, poder dar-te a mão e ir para onde escolheres, poder estar ao teu lado na vida que decidires. Sei, como só eu e tu sabemos, como sentes esse amor. E só eu sei porque é que o agarras com tanta força. Porque tu não sabes, não sabe ninguém, quanto tempo mais o podes agarrar, porque nunca o vais poder prender. O que eu não sei é o que sentes quando as ondas te rebentam nos pés. Surpresa? Ou já conheces tão bem esse mar que nenhuma distância vos separa? Sentes esse mar quando aqui estás? Quando alguma coisa te corre mal, fechas os olhos e sentes esse mar? O que eu não sei é se o cheiro te é familiar ou se te surpreende a cada esquina. O que eu não sei é se a sensação é sempre a mesma, essa sensação que só podia ser tua, que por mais que me tentes transmitir e que por mais que a queira receber, por ser tão tua, por ser uma parte tão importante de ti, como eu, sem saberes, espero ser, não consigo. Não consigo sentir o que tu sentes. Não conseguir sentir o calor da casa, o amor da família, a vida inteira que pões nas palavras. E nos olhos. Ligaste-me. Ligaste-me e não fui capaz de atender o telefone. Não fui capaz porque estás longe há tanto tempo. Não atendi porque não iria ser capaz de não te dizer que penso em ti. Que te vejo onde não podes estar, que te obrigo a ocupar lugares que não são teus, que falo contigo. É tão fácil falar contigo. E tu sabes que não iria ser capaz de te dizer isto, porque sou capaz de te querer, mas incapaz de mudar. Por isso não atendi o telefone. Imagino-te do outro lado da linha, com o impaciente tom de chamada a copiar-te o sentimento. E a arranjar uma desculpa. Eu nunca tenho atenção ao telefone, não é assim? Prefiro que penses isso. E que não me voltes a ligar. Sei que não vais voltar a ligar-me. Olho para o telefone e enquanto espero uma chamada tua que nunca virá, penso no que estás a fazer aí, enquanto eu, sem saberes, espero por ti.