quarta-feira, 23 de maio de 2007

Uma receita simples para o amor?

No outro dia fui jantar com o meu primo. Passeámos mais ou menos sem destino por entre conversas e fomos parar, sem saber como (não é sempre assim?), ao amor. O que define o amor? É uma pergunta que não está respondida em nenhuma FAQ (ai, as minhas piadas...), o que é estranho, porque não há uma única pessoa neste mundo que nunca se tenha feito esta pergunta. O meu primo tem uma teoria. Ele acha que existem sentimentos simples e sentimentos compostos. Os sentimentos simples existem por si só e os compostos, como o próprio nome indica, são uma mistura de sentimentos simples. Para ele o amor é um sentimento composto. É, então, composto por quatro sentimentos simples. Carinho, Amizade, Atracção Física e Admiração. Para quem neste momento se pergunta se o que sente é amor, basta fazer este teste simples. Basta olhar para o que sente e tentar encontrar os quatros sentimentos simples. E depois também pode olhar para uma pessoa que acha que não ama e fazer a mesma coisa. Tem a sua graça. Eu descobri uma quantidade de coisas interessantes. Claro que é só uma teoria, mas dá que pensar. Principalmente se se está à procura de uma resposta e não a encontra em mais lado nenhum. A mim, esta teoria agrada-me por ser tão certa. Parece uma fórmula matemática. Só tenho que pegar nos dados do problema e esperar pelo resultado. Eu gosto de pensar que o mundo é assim, cheio de respostas à espera de serem descobertas. Porque senão fico sem nada para andar à procura e sem motivos para andar para a frente. Sei que muita gente pensa que tudo é muito subjectivo e que os sentimentos não se definem e que temos que esperar que o nosso coração nos guie. Pela minha experiência pessoal, o meu coração é um bocado estúpido. É confuso, às vezes acha que sim, mas depois afinal já não. Manda-me para a frente, mas depois foge cheio de medo. Hoje sente uma coisa, amanhã já nem se lembra bem. Bate descompassadamente por coisas totalmente aparvalhadas. Sinceramente às vezes não tenho muita paciência para o meu coração. Tenho tido melhores resultados quando uso a cabeça.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Só mais este

O mundo está perdido. As pessoas não se esforçam. Fazem só o que têm mesmo que fazer para não serem apanhadas em falta. Ouvem-nos (na diagonal), dão-nos uma palmadinha nas costas e aqui vai disto. Até manhã que agora tenho mais que fazer. Se nos ouvissemos uns aos outros com mais atenção, era bem melhor. Dispensavamos aqueles consenhos (sim, o mais provável é estar mal) do género "força" ou "aguenta-te" ou ainda "o tempo cura tudo". Se nos ouvissemos mesmo uns aos outros, eramos capazes de nos sair com coisas mais originais. E até eramos capazes, mesmo que sem querer, de ajudar mesmo! Sim, eu sei. Eu sei que a ideia de dar um conselho (assim só erro uma vez, qual delas não sei) que realmente sirva para alguma coisa é totalmente absurda, mas é uma coisa que pode acabar por acontecer se dermos às pessoas a atenção que elas merecem. Há alturas em que não é a intenção que conta. Podem pegar nela e metê-la onde o sol não brilha (pai e mãe, peço desculpa, não foi esta a educação que vocês me deram). De boas intenções está o Inferno cheio. Há vezes em que queremos mesmo um apoio. Queremos que fiquem acordados até às duas a ouvir-nos, mesmo que amanhã tenham que acordar às seis. Queremos mesmo que deixem de fazer uma coisa que querem muito só para nos fazerem companhia. Queremos mesmo que se sintam miseráveis connosco e que tenham vontade de bater a quem provoca a nossa tristeza. Queremos mesmo que se esforcem. É só mais um bocadinho. Vai começar a custar muito menos quando receberem o mesmo em troca. O mundo está perdido. As pessoas já não querem saber umas das outras.

Agora vou mesmo dormir. Está a ser uma noite muito difícil. Estou muito revoltada com as pessoas em geral e com a falta de atenção em particular. Beijinhos.

Mas antes de ir (pensavam que se livravam de mim!) queria só partilhar uma coisa que acabou de me ocorrer. Acho que toda a gente conhece aquela anedota em que Deus está a distribuir as riquezas pelo mundo e tudo que sobra põe em Angola. Se alguém não souber que se dirija a mim que terei todo o prazer em contar. Ora, tomei a liberdade de fazer uma pequena adaptação:

"Deus, no dia oito de Janeiro de 1980 está a distribuir as capacidades pelas criancinhas que vão nascer. Distribui as capacidades científicas por um grupo de crianças e como lhe sobra um bocadinho põe na Ana Faria que viria a nascer nesse dia pela hora do almoço numa qualquer maternidade do Sambizanga. Distribui as capacidades literárias por outro grupo de crianças, mas como lhe sobra um bocadinho, põe na já referida Ana Faria. Distribui as capacidades para o desporto por outro grupo de crianças, mas mais uma vez sobra-lhe um bocado, por isso, volta a pôr na Ana Faria. Distribui a beleza por outro grupo e como também lhe sobra um bocadinho (bem mais pequeno que os bocados acima referidos), toca de pôr na Ana Faria. Um anjo, intrigado, pergunta:
- Deus nosso senhor, não acha que essa criança sardenta de caracol rebelde está a ficar com muitas capacidades?
Ao que Deus lhe responde:
- Já vais ver a merda de feitio que lhe vou dar."

Mais uma vez preciso de pedir desculpas aos meus pais. O palavrão que escrevi foi-me ensinado já depois dos dezoito anos, já não vivia em casa. Não foi mesmo esta a educação que me foi dada.

Agora é que é mesmo a sério.

Parece um pedido de desculpas mas não é, é um pedido de salvamento, acho eu

Eu não gosto de: erros ortográficos; peixe frito; dormir demais; pessoas que sabem tudo; me sentir limitada; arrumar a roupa; pessoas difíceis; sabonetes com cheiro a côco; canela; unhas compridas; me sentir confusa; lagartixas; chocolate escuro; filmes de guerra; pessoas que não lutam; dores que doem por dentro; surpresas; perder; ganhar sem mérito; pessoas com memória curta; sentir-me velha; arrepender-me de tanta coisa; chegar atrasada; faltar a promessas; restos de leite com chocolate; pensar que já fui melhor.

Eu gosto de: todas as pessoas da minha família; poucas pessoas fora da minha família; bróculos com maionese; jogar minas; desafios; ir ao cinema; pessoas com graça; pormenores; cor de rosa; matemática; ligar o rádio assim que acordo; conduzir; falar com o meu sobrinho sobre coisas que ele não entende; saber que tenho nos meus pais todo o apoio que precisei, preciso e vou precisar; pessoas com vontade de saber mais; um jantar com boa companhia; boas conversas; gargaláxias universais; pequenos gestos; olhar para mim e ver que estou melhor.

Eu queria (com urgência): ser mais compreensiva, menos apaixonada, mais paciente, menos fácil, mais controlada, menos perspicaz, mais estável, menos humana, mais orgazinada, menos triste, mais nova, menos vulnerável, mais magra, menos agressiva, mais doce, menos sensível, mais forte, menos menina, mais amável, melhor.

Objectivo do post: escrever qualquer coisa decente depois dos disparates do anterior (totalmente sem sucesso)

Este é o resultado de se escrever só porque se tem um teclado à mão (que piada tão boa!)

Quem sabia que isto ía acontecer ponha a mão no ar!
"Toda a gente cá da casa põe a mão no ar!"

Meu Deus, esta foi mesmo fácil. E má, ainda por cima. Mas eu hoje estou feita uma pessoa muito, mas mesmo muito má. Mesmo uma verdadeira besta à moda antiga. Não percebo o que as pessoas me dizem. E sou má para elas. Já tinha dito que hoje estou mesmo má? E já tinha dito que peço muito?

No fundo no fundo, já todos sabiamos que isto ía acabar assim, não é? Então já não se fala mais no assunto.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O tempo perguntou ao tempo...

Sempre tive uma relação complicada com o tempo. Talvez porque numa certa altura da minha vida decidi ignorá-lo e portar-me como se tivesse todo o tempo do mundo. Acho que o enfureci, porque de há algum tempo para cá, o tempo tem-me obrigado a estar consciente da sua presença. Dez anos é uma vida, seis meses são cinco minutos, trinta anos depois já é tarde demais, nove anos antes era muito cedo. Brinquei com todo o tempo que tinha e o tempo castigou-me. Mostrou-me que tudo tem o seu tempo, que o tempo é sempre curto, que o que queremos demora sempre muito tempo. Passa por mim rápido quando quero ficar mais um bocado de tempo. Arrasta-se numa velocidade parada quando só quero que o tempo acabe. Gostava de fazer as pazes com o tempo que ainda me resta. Gostava de poder pedir-lhe que ficasse mais tempo quando estou contente e gostava de poder pedir-lhe que se despachasse quando tudo parece estar a cair. Hoje gostava que o tempo voasse. Gostava que pegasse em tudo e que passasse rápido como uma bala. Gostava que não se demorasse tanto. Que não me obrigasse a sentir tanto. Que não me obrigasse a sentir tudo. Mas o tempo continua zangado comigo. Porque me quer mostrar que preciso dele. Porque me quer mostrar que precisava de mais tempo. Porque me quer mostrar que às vezes é preciso ainda mais tempo. Porque me quer mostrar que quando quero não me devia faltar tempo. Porque me quer mostrar que só estou a perder tempo quando penso que estou a fazer tempo. O tempo não se faz, o tempo não se transforma. O tempo gasta-se. E o tempo é da opinião que já perdi muito tempo a pensar no que faria se tivesse mais tempo.

Amo-vos muito, pai e mãe. Foi o tempo que me ensinou que, para dizer estas coisas, vai-se sempre a tempo.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Só mais um dia como qualquer outro

Sentimo-nos todos tão cansados, não é? São aquelas dorezinhas de cabeça, são aqueles incómodozinhos não sei aonde, aquelas sensaçõezinhas de cansaço que nos invadem depois de um dia que foi passado todo na mesma cadeira. Andamos a cair aos bocadinhos por aí. Parecemos um desfile de carros usados e em péssimo estado. Mas todos bem pintadinhos e bem lavadinhos e com os kilometrozinhos tirados que é para ninguém dar conta. E sorrimos. Mas entre nós, vemos tudo isso. Eu vejo o meu e os vossos. Olha para estes papéis que tenho que ler e saber para amanhã e dá-me o cansaço. Dói-me tudo. E é mesmo uma dor física. Aquelas dores que quando chegam dizemos "devo 'tar a chocar alguma". Mas não estou doente. Estou só sem fôlego para hoje mas sabendo claramente que amanhã já vai ser tarde demais. Não me lembro quando mudei. Quando perdi a garra. Quando perdi a vontade de mandar no meu destino e de decidir como as coisas iam ser. Devo ter olhado para o trabalho que isso dava e cansei-me. Deve ter-me começado a doer tudo. O corpo e a alma. Como se estivesse a chocar uma doença metafísica. Que me ataca as capacidades e se faz sentir nos ossos. Agora vou dormir. Vou dormir porque já não consigo ver caminho para a frente. Vou dormir na esperança de, durante o sono, encontrar num qualquer canto de mim, a vontade de lutar. Mas amanhã vou acordar com a sensação que já passou e que já não vou a tempo. Que devia ter aguentado mais tempo na noite anterior, que afinal nem tinha assim tanto sono. Porque amanhã de manhã já me esqueci das dores de hoje, porque já estou a ser obrigada a lidar com as dores de amanhã. Sim, ando aqui às voltas. Porque é mesmo assim que me sinto. Encurrala, mais uma vez. Sem saída, mais uma vez. Deslocada, mais uma vez. Perdida, outra vez. Sozinha, por opção. Porque ou nos dão força ou temos que ir buscá-la não sei aonde. Pegamos num bocado do coração que estava ocupado a amar e fazemos uma corda e trepamos para fora do buraco (linda imagem). Se não há colo sentamo-nos na cadeira de sempre e lutamos sozinhos. Luto sozinha, como sempre.