domingo, 22 de julho de 2007

Sweet escape

Há maneira de saber se alguns dias compensam muitos anos? Há maneira de ter a certeza daquilo que se sente? Não há. Nunca se sabe até as coisas desaparecerem e mesmo nessa altura a frustração, a sensação de ter perdido uma coisa que sabia ser minha tolda-me a visão e faz-me crer que me dói mais do que quero. O que quero agora é continuar a sentir isto e não parar de sentir. Quero sentir isto para sempre. E para sempre sempre foi uma coisa que tive muito cuidado em não deixar entrar na minha vida. É mais fácil acreditar que nunca poderá ser para sempre porque para isso basta-me destruir o que me dão. É mais fácil do que manter. A nossa vida é o que fazemos dela e eu tornei-me naquilo que a minha vida fez de mim. É mais fácil estar sozinha, lutar sozinha, levantar-me sozinha e cair sozinha. É mais fácil confiar só na minha mão. É a única que sempre esteve cá e que vai cá estar para sempre. É a única em que confio. Só confio em mim para me apoiar porque tudo o resto tem prazo para partir. Por isso só deixo que se veja a máscara. O resto não interessa. O medo de não ser a melhor, de nunca mias conseguir ser melhor, de não ser boa o suficiente para conseguir ter o melhor. Isto tudo não interessa e não interessa que ninguém veja. Deixo que acreditem que o riso é verdadeiro, que o coração a bater forte é paixão, que a segurança é sentida. Deixo que acreditem na esperança de me fazerem acreditar. Não acho que seja muito grave não chorar. Chorar faz-me sentir fraca e desprotegida. Há uns anos deixei de chorar por solidão, tristeza, desilusão, medo. Choro com saudades de casa. Permito-me chorar quando estou quase a chegar e quando ainda lhe sinto os cheiros, quando ainda lhe ouço os sons e quando ainda queria continuar a ver a casa. Tenho saudades de casa. Duas pessoas que se amam separadas é quase tão estúpido como duas pessoas que se odeiam juntas. Talvez muito mais estúpido porque doeu como nunca pensei ser possível. De uma maneira que ainda dói e que ainda consigo sentir quando olho para trás, para a frente e para ti.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Paragem cerebral 2.7 - O salto das versões intermédias é para o bem estar mundial. Juro!

Não conseguimos mudar a nossa essência. Não conseguimos mudar o que somos e eu não consigo fugir do que sou. Olho para todos os esforços que fiz para me fazer outra pessoa e não consigo evitar a gargalhada. Que patéticos são. Não consigo evitar rir-me do quanto sou patética. Eu sei que nunca tenho a vida controlada, que é uma coisa impossível. Mas sempre pensei que, para acontecer alguma coisa, estaria dentro de um certo intervalo de porcaria. Intervalo esse bem limitado. Nunca a ir de mais a menos infinito. Quando muito qualquer coisa entre uma multa por excesso de estupidez aguda aliada a irresponsabilidade crónica (as doenças crónicas são fixes porque são desculpas para a vida) e um atestado de solidão para o resto da minha inútil existência derivado do facto de ter um feitio pior do que uma godzilla em dias de período. Mas nunca pensei que a vida, com o seu sentido de humor totalmente despropositado (alguém lhe devia dizer que não há quem lhe ache graça) se fosse pôr a ler-me e a castigar-me por coisas que disse do alto da minha falta de capacidade de estar calada. A palavra nunca foi-me espetada mesmo no meio da cara só para eu não pensar que sou mais que os outros e que nunca mais me ía acontecer uma coisa que disse que nunca mais seria capaz de ultrapassar. Ora toma lá vai buscar. Que é pra não seres parva... Bom, mas eu sou parva. Sou parva e estou a pagar por ter dito que nunca mais me metia em drogas (ai que bem que isto soa!), por ter dito que gosto de viver a correr (não querias correr? então não chora por teres tropeçado!), por ter dito que nunca mais ía ser capaz de me fazer forte e rija e super qualquer coisa. Porque agora vou ter que pegar em mim e ser capaz de tudo. Outra vez. Posso ficar a dormir? Não senhora, tens mais que fazer e há quem espere por ti. Posso parar para descansar? Não senhora, tens o comboio da vida para apanhar e há quem espere por ti. Posso chorar? Só um bocadinho. Sinto-me tão triste... Minha menina estou-me positivamente a cagar e negativamente nas tintas. Faça favor de lenvantar esse cu e tome lá um copinho de água para empurrar um velho amigo. Reatar velhas amizades é realmente uma coisa bonita. Faz-nos ver como fomos, como somos e que no meio fomos uma bela merda. Agora é a altura de fazer da maneira certa, tomar uma dose de responsabilidade empurrada com um suminho do que tem mesmo que ser. É a minha vida. Igualzinha à de ontem, totalmente diferente à de ontem. Tu és capaz. E se não fores basta fingires. Anda tudo distraido. A menina tem uma doença crónica, aprenda a viver com isso (Xina pá, o que eu curto doenças crónicas! Não me lembro já bem porquê...). Duas pessoas que se amam separadas é quase tão estúpido como duas pessoas que se odeiam juntas. Vá, talvez um bocado mais estúpido porque dói mesmo aqui tão perto. Juntamente com a dor de todas as outras revoltas, aquelas que gritam que não é justo, que não devia estar a acontecer e qualquer coisa como vai chatear outro. Parabéns. Nível de coerência: zero.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Não há tempo a perder

Gostava de ter tempo para me deitar de barriga para cima na minha cama e perder-me a olhar para o tecto. Começar por querer pensar na vida, mas acabar a contar manchas e irregularidades.
Gostava de ter tempo para combinar um jantar e passar o dia inteiro a pensar na excitação. Começar por correr o guarda-roupa todo na cabeça, perder-me a meio e acabar sem saber o que vestir.
Gostava de ter tempo para fazer desporto como se mais nada importasse. Começar com a língua de fora e a arrastar-me (mas sem ninguém ver), mas acabar a querer mais e a puxar mais e morta por fora, sentindo-me totalmente viva por dentro.
Gostava de ter tempo para ler qualquer coisa. Começar com um livro, a meio perceber que conseguia escrever aquilo, largar o livro e pegar no meu. Acabar por escrever. E acabar de escrever.
Gostava de ter tempo para estar uma noite inteira sem fazer nada. Começar por me apetecer jogar minas, passar por me apetecer conversar um bocado, ver um bocado de televisão, ouvir música, voltar a jogar minas e acabar por adormecer totalmente entediada.
Gostava de ter tempo para decidir fugir de repente. Olhar à volta, pegar no que me faz falta e ir até qualquer sítio, pisar areia quente, rebolar na relva, rir-me como uma criança, viver como gente grande.
Gostava de ter tempo para me sentir bem comigo mesma, para não me importar de estar sozinha. Estou sozinha? Não faz mal, tenho tempo para chegar até ti.
Gostava de ter tempo para me perguntar se me faz falta mais tempo. Se esta pressa não é já minha, não faz parte de mim, não me define. Já não sei viver parada. Sou rápida a viver, rápida a sentir, rápida a curar feridas, rápida a abrir novas.
Gostava de ter tempo para parar. Gostava de ter tempo para parar e descobrir que quero viver a correr.

Vou perder um bocadinho de tempo a pôr parágrafos neste texto. Só para ser diferente.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Face to palm, heart to ground

Hoje um cheiro fez-me lembrar uma altura da minha vida que já não me lembrava que tinha existido. Fez-me lembrar de uma pessoa que já fui, tão longe da que sou hoje. Fez-me lembrar de como era frágil. Fez-me lembrar que se aqui estou hoje, foi porque nessa altura tive que ser mais forte do que a minha força me permitia. Fez-me pensar que não sei como fui capaz. Como fui capaz de me pôr de pé, continuar de pé e caminhar pela estrada que me trouxe até aqui. Olho para trás e não sei se seria capaz de o voltar a fazer. Olhei para trás e vi tanta coisa. Mais sofrimento do que me lembrava, menos alegrias daquelas que pensei ter. Feridas que sararam escondidas do mundo, gritos mudos do coração e da alma, dias sem rumo à procura de um abrigo. Olhei para trás e consegui ver-me a fazer pinturas de guerra que hoje já não sei apagar e pinturas de sonhos que já não me lembro de ter. Olhei para trás e vi um grande caos. Olho para a frente e penso que depois disto, sou capaz de tudo. Menos de voltar para trás. Talvez por hoje me ter lembrado de como conseguia subir da terra para o céu num segundo, para voltar para o chão em menos de nada, consegui finalmente perceber porque é que o meu copo agora só passa de meio vazio para meio cheio. Um copo cheio é uma vida completa de coisas que mais tarde ou mais cedo vão evaporar, vão deixar o copo vazio e vão deixar-me a mim vazia, vão deixar-me sozinha. Mas quando o céu e a terra se unem por causa do momento em que a razão perde para o coração, não tento explicar o inexplicável, não tento perceber como pôde ser tão rápido, nem me assusto com o sentir que posso tudo e que por um olhar faço tudo. Porque nesse momento sinto que essa loucura me faz falta todos os dias, que um dia sem sentir a respiração parece um ano, um minuto sem ver as certezas no olhar faz-me sentir sem vida. Nessa altura vou deixar o meu dia acabar perfeitamente lamechas ou lamechamente perfeito...

Foste quase tudo para mim, sem saberes

Estive a ler-me de trás para a frente e descobri que tu foste o meu ponto de viragem. Foi o teu jogo que me fez mais cuidadosa. Foi a tua indiferença que me fez presente. Foi o teu interesse que me fez doente. Doente por ti. Foi depois de fazeres o meu coração um trapo que decidi que tinha que parar. Que tinha que encontrar o equilíbrio e a força que tu não tinhas. Tinha que recuperar o equilíbrio e a força que tu me tinhas roubado. Enquanto fugia de ti não fui capaz de reparar que era em direcção a ti que corria. Corri a olhar para trás, contente por já não te ver, só para chocar contra ti. E de novo perdi a cabeça e deixei-me envolver nas tuas conversas de criança que por estúpidos momentos me pareceram uma língua de carinho que só eu conseguia perceber. Perdi-me e esqueci-me de pensar. Voltei a perder-me em ti e por ti. Mas como seria de esperar, não demorou muito até que me voltasses a voltar as costas. Olhei à volta e não vi nada. Não te vi a ti e não vi nada do tudo que tinha. Por ti perdi a cabeça e por ti perdi tudo. Mas por me ter perdido por ti consegui perceber que o tudo que tinha afinal não era nada, nunca tinha sido nada, senão não te teria deixado existir em mim. Foi quando voltaste a ser o meu ponto de viragem. Tinha de encontrar outro tu por quem me perder. O tu que eras já não me chegava.

domingo, 17 de junho de 2007

I'm a hazard to myself

Não sei se é demais ou se sou eu que sou de menos. Não sei se é mesmo muito pesado ou se sou eu que tenho pouca força. Não é só por causa de uma coisa que me deixo escorregar. É por causa de todas. Todas que se tornam todas mais uma e de repente o meu teatro cai. Torna-se insuficiente e eu caio. Eu sou uma pessoa feliz. Nem por um dia duvido disso. São os meus pais, a minha irmã, o meu sobrinho, a minha cusina, os meus primos, as minhas tias, são os meus amigos, é a cabeça, é a cara, é o corpo, é a casa, é o carro, é a saúde, é o açúcar que cristaliza e me emperra as engrenagens, é o tudo que tenho e o nada que me falta. É tudo e eu tenho tudo. Nem por um dia duvido disso. Mas um dia todas as coisas transformam-se em todas as coisas mais uma e eu caio. Então encosto-me ao vidro para ver para fora sem deixar ninguém ver para dentro. Lamento o que tenho que lamentar, lamento o meu maior defeito, sinto a dor no peito, deixo-a ficar durante um bocado porque sentir dor nem sempre faz mal. Deixar-me estar sem forças nem sempre é mau. Faz-me lembrar que tenho mais força que isso e faz-me pensar em toda a força que vou precisar para sair. Limpo a vergonha da cara e desencosto-me do vidro. Levanto a cabeça e que se lixe, mais uma vez. E outra e outra. Não é com a minha tristeza que o mundo vai parar. Não é com a tristeza que o meu mundo vai parar. Não largo o meu mundo completo por nada e não deixo a minha vida ser vivida por mais ninguém. Sou forte, sou fraca, sou bonita, sou feia, sou doce, sou uma besta e raios me partam se não sou capaz de levar com tudo em cima.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Queria ser um bicho para comer o bicho que te come


Vou-te explicar com todas as letras para ver se tu percebes.

EU AMO-TE!!!

Não há ninguém neste mundo por quem te troque. Porque é que não acreditas em mim quando te digo isso? Quando eu estou em baixo é no teu colo que me vou sentar e quando estou em alta é contigo que vou ter aos pulos de alegria. Encontrei-te na altura em que mais precisava de ti, sem saber. Foi há tanto tempo e já se passou tanta coisa, já se passaram vidas inteiras desde que te obriguei a entrar na minha vida. Tens defeitos e eu estou longe de ser perfeita, mas ficámos juntos, não é verdade? Tanto se passou por nós e entre nós e não foi isso que acabou connosco. Eu aturo-te, tu aturas-me e nós somos à prova de bala. És o meu apoio, a minha âncora, a minha consciência, a minha razão e o meu coração. És tudo para mim, por isso não queiras ocupar um lugar em mim que não te pertence. Não queiras um cantinho só pra ti no meu coração porque o que tens lá para ti é uma mansão. Só tua. Não está alugada. É tua. Compraste-a com tudo que me deste e com a vida que ainda temos à nossa frente. Não está ninguém à porta à espera que tu saias ou que vás de férias para ocupar o teu lugar. A Dora vive na mansão ao lado da tua e se quisesses ter medo de alguém, mais valia teres dela. Mas a mansão dela já lá está há anos, e ela nem gosta da decoração da tua. Por ti faço tudo, deixo tudo, largo tudo e o fim do mundo parece-me perto se tu lá estiveres e precisares de mim. Percebeste agora?

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Porque às vezes há coisas que não devo dizer

Há palavras tão fortes. Fortes demais para serem ditas. Mas por serem tão fortes conseguem passar por todas as outras e ficar mesmo à saída da garganta. E esperam até me apanharem despercebida. E então saltam cá para fora juntamente com as outras, bem embrulhadas, mas se alguém estiver atento e se esse alguém tiver capacidade para isso, vai perceber. Vai perceber que disse não dá na altura certa. Na altura certa para mim, porque isso a minha cabeça sabe sempre, mesmo que o meu coração estejas aos gritos para voltar a tentar. Ele não sabe o que diz. Tem a memória curta e depois de dois dias não se lembra do que sofreu, do que me fez sofrer. De como me custou levantar quando só queria desaparecer. Se alguém estiver atento vai perceber que disse gosto de ti cedo demais. Cedo demais para se ouvir. Cedo demais para ser dito. Porque muitas vezes o meu coração prega-me partidas na sua pressa de amar. Por isso é cedo demais, é sempre cedo demais. Tão cedo que quero atrasar estas palavras para nunca mais, quero não ter vontade de as ter debaixo da língua, tão prontas para sair que não conseguem esperar na garganta. Há palavras tão fortes. Tão fortes que, enquanto as temos só para nós, nos sentimos presos, enquanto as temos cá dentro elas prendem-nos. E estão sempre a insinuar que se as deixarmos ir tudo correrá bem, vamos sentir-nos mais livres, vamos sentir-nos livres para as repetir e voltar a repetir até terem sido bem percebidas. Mas eu não as ouço. Finjo que não as ouço e faço de conta que não estão lá. Não quero saber delas e vou buscar outras palavras mais minhas amigas, que não exijam tanto de mim. Mas sei onde elas me vão encontrar. Sei onde elas estão à minha espera. Nos meus sonhos não vou conseguir escapar delas e vou ter que dizê-las. Vou dizê-las na altura certa e à pessoa certa. Gosto de ti e não dá.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Sem ninguém ver

Sabe-me bem o frio da minha cama quando me vou deitar no fim do dia. Sabe-me bem apenas por saber que em pouco tempo os cobertores vão lembrar-se das suas funções e vão aquecer-me o corpo. Primeiro as mãos, depois os braços, o tronco, as pernas e só no fim os pés. Acho que os meus cobertores sabem que só consigo adormecer quando tenho os pés quentes. Então aquecem-nos por último para que esteja acordada até que acabem o seu trabalho. Para que saiba que o fizeram e para que lhes possa estar grata. Acho que o fazem também para que possa gostar do frio da minha cama quando me vou deitar ao fim do dia, para que possa ter esse prazer. Para saber que agora estou fria, mas sabendo sempre que eles vêm em meu socorro. Porque vêm sempre, nunca falham. Acho que eles sabem o valor que dou a isso, a essa segurança, a essa confiança que posso ter neles. E é só por isso que me obrigam a ter consciência do seu trabalho, deixando-me com os pés frios até ao fim. Podia dizer-lhes que não é preciso, que eu acredito neles. Que eu acredito sempre. E nas noites em que estou mais cansada e já não consigo esperar pelos pés, deixo-me ir com a certeza que no dia seguinte quando acordar, os meus cobertores me aqueceram o coração durante a noite.

terça-feira, 5 de junho de 2007

A fotografia está na minha cabeça e o vestido era cor de rosa com flores

Pela primeira vez na minha vida senti a maternidade a chamar por mim. Apanhou-me a dormir e infiltrou-se num dos meus sonhos loucos (serão mesmo loucos?). Não é a primeira vez que sonho que estou grávida. Mas foi a primeira vez em que não acordei apavorada. Às vezes os meus sonhos parecem tão reais que muitas vezes acontece acordar a pensar que me vão prender porque acabei de matar alguém, ou descansada porque já fiz um certo trabalho, ou cheia de dores porque levei um enxerto de porrada. Quando acordei ontem, a pensar que estava grávida, demorei alguns segundos a perceber que tinha estado a sonhar. Mas tive tempo de pôr a mão na barriga. E tive também tempo para desejar que estivesse alguém daquele lado a sentir o calor da minha mão. Posso dizer com toda a certeza e com nenhuma margem para enganos, que foi a primeira vez que senti isto. Foi a primeira vez em que senti que gostava que isso acontecesse quando a altura fosse a certa. Isso foi no sábado à noite. Agora estou só à espera que passe.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Uma receita simples para o amor?

No outro dia fui jantar com o meu primo. Passeámos mais ou menos sem destino por entre conversas e fomos parar, sem saber como (não é sempre assim?), ao amor. O que define o amor? É uma pergunta que não está respondida em nenhuma FAQ (ai, as minhas piadas...), o que é estranho, porque não há uma única pessoa neste mundo que nunca se tenha feito esta pergunta. O meu primo tem uma teoria. Ele acha que existem sentimentos simples e sentimentos compostos. Os sentimentos simples existem por si só e os compostos, como o próprio nome indica, são uma mistura de sentimentos simples. Para ele o amor é um sentimento composto. É, então, composto por quatro sentimentos simples. Carinho, Amizade, Atracção Física e Admiração. Para quem neste momento se pergunta se o que sente é amor, basta fazer este teste simples. Basta olhar para o que sente e tentar encontrar os quatros sentimentos simples. E depois também pode olhar para uma pessoa que acha que não ama e fazer a mesma coisa. Tem a sua graça. Eu descobri uma quantidade de coisas interessantes. Claro que é só uma teoria, mas dá que pensar. Principalmente se se está à procura de uma resposta e não a encontra em mais lado nenhum. A mim, esta teoria agrada-me por ser tão certa. Parece uma fórmula matemática. Só tenho que pegar nos dados do problema e esperar pelo resultado. Eu gosto de pensar que o mundo é assim, cheio de respostas à espera de serem descobertas. Porque senão fico sem nada para andar à procura e sem motivos para andar para a frente. Sei que muita gente pensa que tudo é muito subjectivo e que os sentimentos não se definem e que temos que esperar que o nosso coração nos guie. Pela minha experiência pessoal, o meu coração é um bocado estúpido. É confuso, às vezes acha que sim, mas depois afinal já não. Manda-me para a frente, mas depois foge cheio de medo. Hoje sente uma coisa, amanhã já nem se lembra bem. Bate descompassadamente por coisas totalmente aparvalhadas. Sinceramente às vezes não tenho muita paciência para o meu coração. Tenho tido melhores resultados quando uso a cabeça.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Só mais este

O mundo está perdido. As pessoas não se esforçam. Fazem só o que têm mesmo que fazer para não serem apanhadas em falta. Ouvem-nos (na diagonal), dão-nos uma palmadinha nas costas e aqui vai disto. Até manhã que agora tenho mais que fazer. Se nos ouvissemos uns aos outros com mais atenção, era bem melhor. Dispensavamos aqueles consenhos (sim, o mais provável é estar mal) do género "força" ou "aguenta-te" ou ainda "o tempo cura tudo". Se nos ouvissemos mesmo uns aos outros, eramos capazes de nos sair com coisas mais originais. E até eramos capazes, mesmo que sem querer, de ajudar mesmo! Sim, eu sei. Eu sei que a ideia de dar um conselho (assim só erro uma vez, qual delas não sei) que realmente sirva para alguma coisa é totalmente absurda, mas é uma coisa que pode acabar por acontecer se dermos às pessoas a atenção que elas merecem. Há alturas em que não é a intenção que conta. Podem pegar nela e metê-la onde o sol não brilha (pai e mãe, peço desculpa, não foi esta a educação que vocês me deram). De boas intenções está o Inferno cheio. Há vezes em que queremos mesmo um apoio. Queremos que fiquem acordados até às duas a ouvir-nos, mesmo que amanhã tenham que acordar às seis. Queremos mesmo que deixem de fazer uma coisa que querem muito só para nos fazerem companhia. Queremos mesmo que se sintam miseráveis connosco e que tenham vontade de bater a quem provoca a nossa tristeza. Queremos mesmo que se esforcem. É só mais um bocadinho. Vai começar a custar muito menos quando receberem o mesmo em troca. O mundo está perdido. As pessoas já não querem saber umas das outras.

Agora vou mesmo dormir. Está a ser uma noite muito difícil. Estou muito revoltada com as pessoas em geral e com a falta de atenção em particular. Beijinhos.

Mas antes de ir (pensavam que se livravam de mim!) queria só partilhar uma coisa que acabou de me ocorrer. Acho que toda a gente conhece aquela anedota em que Deus está a distribuir as riquezas pelo mundo e tudo que sobra põe em Angola. Se alguém não souber que se dirija a mim que terei todo o prazer em contar. Ora, tomei a liberdade de fazer uma pequena adaptação:

"Deus, no dia oito de Janeiro de 1980 está a distribuir as capacidades pelas criancinhas que vão nascer. Distribui as capacidades científicas por um grupo de crianças e como lhe sobra um bocadinho põe na Ana Faria que viria a nascer nesse dia pela hora do almoço numa qualquer maternidade do Sambizanga. Distribui as capacidades literárias por outro grupo de crianças, mas como lhe sobra um bocadinho, põe na já referida Ana Faria. Distribui as capacidades para o desporto por outro grupo de crianças, mas mais uma vez sobra-lhe um bocado, por isso, volta a pôr na Ana Faria. Distribui a beleza por outro grupo e como também lhe sobra um bocadinho (bem mais pequeno que os bocados acima referidos), toca de pôr na Ana Faria. Um anjo, intrigado, pergunta:
- Deus nosso senhor, não acha que essa criança sardenta de caracol rebelde está a ficar com muitas capacidades?
Ao que Deus lhe responde:
- Já vais ver a merda de feitio que lhe vou dar."

Mais uma vez preciso de pedir desculpas aos meus pais. O palavrão que escrevi foi-me ensinado já depois dos dezoito anos, já não vivia em casa. Não foi mesmo esta a educação que me foi dada.

Agora é que é mesmo a sério.

Parece um pedido de desculpas mas não é, é um pedido de salvamento, acho eu

Eu não gosto de: erros ortográficos; peixe frito; dormir demais; pessoas que sabem tudo; me sentir limitada; arrumar a roupa; pessoas difíceis; sabonetes com cheiro a côco; canela; unhas compridas; me sentir confusa; lagartixas; chocolate escuro; filmes de guerra; pessoas que não lutam; dores que doem por dentro; surpresas; perder; ganhar sem mérito; pessoas com memória curta; sentir-me velha; arrepender-me de tanta coisa; chegar atrasada; faltar a promessas; restos de leite com chocolate; pensar que já fui melhor.

Eu gosto de: todas as pessoas da minha família; poucas pessoas fora da minha família; bróculos com maionese; jogar minas; desafios; ir ao cinema; pessoas com graça; pormenores; cor de rosa; matemática; ligar o rádio assim que acordo; conduzir; falar com o meu sobrinho sobre coisas que ele não entende; saber que tenho nos meus pais todo o apoio que precisei, preciso e vou precisar; pessoas com vontade de saber mais; um jantar com boa companhia; boas conversas; gargaláxias universais; pequenos gestos; olhar para mim e ver que estou melhor.

Eu queria (com urgência): ser mais compreensiva, menos apaixonada, mais paciente, menos fácil, mais controlada, menos perspicaz, mais estável, menos humana, mais orgazinada, menos triste, mais nova, menos vulnerável, mais magra, menos agressiva, mais doce, menos sensível, mais forte, menos menina, mais amável, melhor.

Objectivo do post: escrever qualquer coisa decente depois dos disparates do anterior (totalmente sem sucesso)

Este é o resultado de se escrever só porque se tem um teclado à mão (que piada tão boa!)

Quem sabia que isto ía acontecer ponha a mão no ar!
"Toda a gente cá da casa põe a mão no ar!"

Meu Deus, esta foi mesmo fácil. E má, ainda por cima. Mas eu hoje estou feita uma pessoa muito, mas mesmo muito má. Mesmo uma verdadeira besta à moda antiga. Não percebo o que as pessoas me dizem. E sou má para elas. Já tinha dito que hoje estou mesmo má? E já tinha dito que peço muito?

No fundo no fundo, já todos sabiamos que isto ía acabar assim, não é? Então já não se fala mais no assunto.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O tempo perguntou ao tempo...

Sempre tive uma relação complicada com o tempo. Talvez porque numa certa altura da minha vida decidi ignorá-lo e portar-me como se tivesse todo o tempo do mundo. Acho que o enfureci, porque de há algum tempo para cá, o tempo tem-me obrigado a estar consciente da sua presença. Dez anos é uma vida, seis meses são cinco minutos, trinta anos depois já é tarde demais, nove anos antes era muito cedo. Brinquei com todo o tempo que tinha e o tempo castigou-me. Mostrou-me que tudo tem o seu tempo, que o tempo é sempre curto, que o que queremos demora sempre muito tempo. Passa por mim rápido quando quero ficar mais um bocado de tempo. Arrasta-se numa velocidade parada quando só quero que o tempo acabe. Gostava de fazer as pazes com o tempo que ainda me resta. Gostava de poder pedir-lhe que ficasse mais tempo quando estou contente e gostava de poder pedir-lhe que se despachasse quando tudo parece estar a cair. Hoje gostava que o tempo voasse. Gostava que pegasse em tudo e que passasse rápido como uma bala. Gostava que não se demorasse tanto. Que não me obrigasse a sentir tanto. Que não me obrigasse a sentir tudo. Mas o tempo continua zangado comigo. Porque me quer mostrar que preciso dele. Porque me quer mostrar que precisava de mais tempo. Porque me quer mostrar que às vezes é preciso ainda mais tempo. Porque me quer mostrar que quando quero não me devia faltar tempo. Porque me quer mostrar que só estou a perder tempo quando penso que estou a fazer tempo. O tempo não se faz, o tempo não se transforma. O tempo gasta-se. E o tempo é da opinião que já perdi muito tempo a pensar no que faria se tivesse mais tempo.

Amo-vos muito, pai e mãe. Foi o tempo que me ensinou que, para dizer estas coisas, vai-se sempre a tempo.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Só mais um dia como qualquer outro

Sentimo-nos todos tão cansados, não é? São aquelas dorezinhas de cabeça, são aqueles incómodozinhos não sei aonde, aquelas sensaçõezinhas de cansaço que nos invadem depois de um dia que foi passado todo na mesma cadeira. Andamos a cair aos bocadinhos por aí. Parecemos um desfile de carros usados e em péssimo estado. Mas todos bem pintadinhos e bem lavadinhos e com os kilometrozinhos tirados que é para ninguém dar conta. E sorrimos. Mas entre nós, vemos tudo isso. Eu vejo o meu e os vossos. Olha para estes papéis que tenho que ler e saber para amanhã e dá-me o cansaço. Dói-me tudo. E é mesmo uma dor física. Aquelas dores que quando chegam dizemos "devo 'tar a chocar alguma". Mas não estou doente. Estou só sem fôlego para hoje mas sabendo claramente que amanhã já vai ser tarde demais. Não me lembro quando mudei. Quando perdi a garra. Quando perdi a vontade de mandar no meu destino e de decidir como as coisas iam ser. Devo ter olhado para o trabalho que isso dava e cansei-me. Deve ter-me começado a doer tudo. O corpo e a alma. Como se estivesse a chocar uma doença metafísica. Que me ataca as capacidades e se faz sentir nos ossos. Agora vou dormir. Vou dormir porque já não consigo ver caminho para a frente. Vou dormir na esperança de, durante o sono, encontrar num qualquer canto de mim, a vontade de lutar. Mas amanhã vou acordar com a sensação que já passou e que já não vou a tempo. Que devia ter aguentado mais tempo na noite anterior, que afinal nem tinha assim tanto sono. Porque amanhã de manhã já me esqueci das dores de hoje, porque já estou a ser obrigada a lidar com as dores de amanhã. Sim, ando aqui às voltas. Porque é mesmo assim que me sinto. Encurrala, mais uma vez. Sem saída, mais uma vez. Deslocada, mais uma vez. Perdida, outra vez. Sozinha, por opção. Porque ou nos dão força ou temos que ir buscá-la não sei aonde. Pegamos num bocado do coração que estava ocupado a amar e fazemos uma corda e trepamos para fora do buraco (linda imagem). Se não há colo sentamo-nos na cadeira de sempre e lutamos sozinhos. Luto sozinha, como sempre.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Ainda bem que não me apetece escrever

Descobri neste preciso momento que só consigo escrever se estiver muito bem ou muito mal. É uma boa notícia. Porque não me apetece escrever. Quer dizer que não estou assim tão mal. Estou só um bocadinho cansada. Dói-me as pernas do pensamento, os braços do sentimento, o corpo todo do viver. Sinto-me um trapo. Velha como um trapo. Fora do prazo. Já não devia estar aqui. Alguém carregou no pause da minha vida. Ah, já me lembro, fui eu. Ao menos não carreguei no stop, menos mal... Carreguei no pause durante um bocadinho, depois, em vez de carregar no play outra vez, carreguei naquele botão que agora não me lembra o nome mas que é para andar devagarinho. Slow motion ou o que é. Tem graça, parece que estou sem pressa. Quem vê de fora é o que pensa. Se calhar é por isso que estou cansada. A minha vida passa devagarinho e eu vivo-a a mil à hora. Dou dez voltas à minha vida no tempo que a minha vida demora a dar-me a volta. Ou então, como me irrita a velocidade com que a minha vida se mexe, pego nela e carrego-a às costas. E que cansativo que isso é. Carregar com as cadeiras todas, com os amigos todos, os que precisam de mim, os que não precisam, os que fingem que não precisam, os que fingem que precisam, com as coisas que tomamos como certas mas que quando olhamos foram dar uma volta, com o amor tão difícil de definir hoje em dia, depois de tantas tentativas de o perceber e de outras tantas para o encontrar, com o apoio que não está lá, mas que não sei bem se devia estar, se eu devia esperar ou se devia, simplesmente, deixar andar. Cansada de agarrar os sentimentos. De controlá-los para parecer controlada. De os forçar a ficar para parecer forte. É que cansa ser uma pessoa que não somos. Desgasta a cabeça. E o sentimento é um bicho bem malhoso (não tinha ninguém a quem perguntar, deve estar mal escrito). Finge que nos está a obedecer mas quando estamos distraidos TRUFAS! No meio do metro. Bem fixe. E depois cansa estar a ser forte e bem disposta e engraçadinha e fofinha e outras inhas que tais logo a seguir. Exige muita da pessoa. Mas não se pode deitar cá para fora tudo de repente. Porque o mundo não está preparado para pessoas sinceras no sentir. Porque o mundo não está preparado para aceitar que pessoas fortes também precisam de colo e que pessoas fracas podem encher o peito e partir para a luta. Porque o mundo não está preparado para aceitar que pessoas fortes podem chorar e que pessoas fracas se sabem rir. Porque o mundo nunca vai perceber que não existem pessoas fortes nem pessoas fracas. Somos todos iguais. Só gerimos os nosso sentimentos de maneira diferente. Se lutamos contra o mundo é porque temos medo que o mundo nos consuma. E o medo não é para os fracos? Se choramos e pedimos ajuda é porque admitimos que sozinhos não somos capazes. E não é preciso muita força para o fazer? E, mais uma vez me sinto cansada. Cansada de sentir necessidade de rir quando quero chorar e de rir quando quero rir e de rir quando quero só estar por aqui. Cansada pra caraças, passando a expressão. Sim, apetece-me chorar porque estou triste. E depois?

domingo, 1 de abril de 2007

Medidas de beleza

Sentir-me bonita tem a sua graça. Tem o seu quê de disparatado. Porque não posso ser duas pessoas diferentes ao mesmo tempo. Se quando sai de casa vi uma pessoa no espelho, essa pessoa continua lá, não se pode ter ido embora só porque me vejo reflectida nos olhos de alguém. Quando me olhei ao espelho vi as imperfeições. Causadas pelo tempo. Causadas pela alimentação. Causadas pelo modo de vida. Algumas até causadas por mim. As rugas ao pé dos olhos, que parecem engraçadinhas mas que me desmascaram quando tento ter dezoito anos, a barriga não muito grande para se ver debaixo da roupa mas grande o suficiente para estragar qualquer roupa interior, as olheiras bem disfarçadinhas pelas sardas, mas presentes, debaixo dos olhos e na alma, testemunhas das noites sem dormir, da ansiedade, da preocupação, de uma vida pesada demais, as cicatrizes nos joelhos, forçadas a existir para fingir a força, para me sentir viva e a lutar, nem que seja por uma bola. Quando olho para o espelho vejo isso tudo. Por isso é que sentir-me bonita é totalmente ridículo. Porque não posso ser feia e sentir-me bonita, tudo ao mesmo tempo. E onde está a verdade? Onde é que me posso ir buscar? Para onde posso olhar e dizer "sim, esta sou eu"? A rapariga (mulher) que vejo ao espelho diz-me para acreditar nela, porque não está lá mais ninguém e ela só posso ser eu. E eu acredito. Mas quando estou na rua, ela abandona-me. E eu sinto-me bonita. Eu sei que a beleza é subjectiva e que não posso procurar a minha beleza nem em mim nem em mais ninguém. Porque eu posso ser feia e sentir-me bonita e ser bonita e sentir-me feia. Porque os meus olhos, os vossos olhos, as fotografias, os espelhos, tudo isso é mentiroso. E apenas me devolve uma reflexão de mim totalmente costruida à base de amor. Ou na falta dele. Por isso, hei-de sempre ser feia no meu espelho, mas vou sempre conseguir sentir-me bonita.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Porque me pareceu que estava um lindo dia pro plágio...


Afirmação

Eu sei que isto é amor.
Procuro o teu olhar se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; e por isso mesmo, acredita que já mais que uma vez pensei num lar onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Nunca chorei por ti, mas já chorei de medo de te perder. Nunca te vou escrever nenhuns versos românticos, mas muitas vezes ao acordar procuro-te ao meu lado, como se fosse normal que lá estivesses, como se esse fosse o teu lugar.
Eu sei que isto é amar-te. Porque muitas vezes penso em ti, os teus jeitos leves, o teu sorriso terno... E sinto-me sorrir ao ver esse sorriso, que me faz tão bem, como este sol de Inverno. Passo contigo a tarde, sempre sem receio da luz crepuscular, que enerva, que provoca, porque estar contigo é fácil, porque és seguro. E às vezes dou comigo a olhar-te durante muito tempo e a pensar em por na tua, a minha boca.
Eu sei que é amor. Mesmo que seja só o começo... E sei que é essa a mudança que a minha alma pressente... Amor tenho a certeza que é, por isso sei que te estremeço, que simplesmente morria de te saber ausente.

Ana Faria (adaptação para prosa do poema "Interrogação" de Camilo Pessanha)

segunda-feira, 26 de março de 2007

Porque às vezes há coisas que preciso dizer

Agora que penso nisso, apaixonar-me perdidamente nunca me trouxe nada de bom. Muito pelo contrário. Eu já sou muito pouco estável sozinha e por incentivo próprio, por isso quando me apaixono perdidamente, é uma verdadeira tragédia. Muito choro, muita gargalhada. Nem uma coisa, nem outra muito sinceras. Fico com o coração a mil, com a cabeça a uma milésima. Perco o meu lado lógico e racional e começo a fazer disparates e a tirar conclusões totalmente disparatadas. E, invariavelmente, quando me apaixono perdidamente, nunca acaba bem, e às vezes nem chega a começar. E agora que perdi um bocadinho a pensar nisso, apaixonar-me perdidamente nunca me trouxe nada de bom. Daí reconhecer a necessidade de não o voltar a fazer.

Eu não gosto muito de Lisboa. Nunca fui muito feliz por aqui. Mas não posso deixar de gostar do tempo sem tempo desta cidade. Das primaveras dentro do inverno, dos verões ainda na primavera e daquele frio cortante que nos apanha despercebidos no meio do calor intenso. Não posso deixar de gostar dessas piadas de mau gosto do tempo sem tempo de Lisboa. Que às vezes se esquece que devia estar frio e põe a temperatura acima dos vinte. Que vê toda a gente com roupa quente, preta e triste e lhes espeta com um sol que pede roupa quente na cor, fresca no sentir, vermelhos, verdes, cor-de-rosinhas de felicidade. Não consigo deixar de gostar de aqui estar às vezes. Por causa da aventura que é vestir-me de manhã. Por causa da aventura que foi viver aqui, crescer aqui, encontrar-me aqui. Não consigo deixar de gostar de ti, Lisboa. E apesar de te odiar, de nunca me teres feito feliz, nunca te vou conseguir agradecer o quanto sou feliz em ti.

quinta-feira, 22 de março de 2007

A (gaja) boa, a má (filha) e a solução

Esta noite, finalmente, dormi. Há duas semanas que ía para a cama sozinha, porque o meu sono devia estar numa rave qualquer. Já que só chegava, invariavelmente, depois das quatro da manhã. Achava eu que ele andava na rombóia. Mas ontem, por volta da hora do jantar, reparei que ele estava por perto e decidi sentar-me e ter uma conversa séria com ele. Fiquei espantada (ou então não) quando ele me disse que era eu que o andava a afastar, que ele só chegava quando eu deixava, ou quando já estava cansada de lutar contra ele. Chamei-lhe uns quantos nomes, incluindo "aldrabão", "mentiroso" e todos os seus sinónimos. Depois lá me acalmei e cheguei a conclusão que, tal como os ovos e as batatas, o sono não fala. Mas que de qualquer maneira eu tinha que resolver os meus problemas com ele. O telefonema e a mensagem da minha mãe também exerceram alguma pressão, quer-me parecer. A conclusão a que cheguei não podia ser mais óbvia. Não, não é ansiedade. É medo. Muito medo. Medo de tudo. De ser feliz, de acabar o curso, de não ser feliz, de não conseguir acabar o curso. Olho para o fundo do túnel e vejo a luz. Vejo como ela está tão perto. Mas vejo também todo o caminho que tenho que percorrer até ele. Longo e com muito trabalho, muito doloroso, com muitas armadilhas, com muitas surpresas, com muitas quedas, com muitas desilusões, com muito de tudo. E isso é uma visão que cansa. E assusta. No fundo, é a parte de mim que acha que eu não presto para nada, que nasci para ser infeliz e para ter uma vida miserável, que está a tentar ter razão à força. Mas, a outra parte de mim, aquela que nasceu para conduzir um Volvo, não se vai ficar. Não vai ser uma luta bonita, vai haver sangue, feridos, mortos e aleijados, mas é necessário. E enquanto essas duas partes de mim andam à chapada, eu vou só até ali resolver uns exercícios. Só para passar o tempo. Pode ser que até dê jeito.

sábado, 3 de março de 2007

Olha um pouco mais de perto

O mais engraçado é que a pessoa por quem esperas, não existe. O mais engraçado é que a pessoa que vês, não existe. Acredita em mim, eu sei melhor que ninguém. Essa pessoa não existe. A inteligência que vês, não existe. É só uma ilusão criada para enganar toda a gente, toda a gente mesmo. Para não verem a fraude. O sorriso de que tanto gostas, não é verdadeiro. É só uma máscara que é posta para que ninguém, ninguém mesmo, veja o sofrimento que faz por dentro. A segurança, a garra, a independência, tudo isso que te fascina, não existe. Podes acreditar. É tudo teatro. Foram tudo mentiras que nasceram numa altura em que sobreviver era preciso. Em que não se podia morrer, não era permitido desistir. E as mentiras foram ficando. Porque atraiam as pessoas. Como te atrairam a ti. Mas peço-te, não acredites nessas mentiras. Não te deixes enganar pela sua inteligência, pelo seu sorriso, por todo o brilho. Não te deixes levar. Faz um esforço e luta contra elas. Faz um esforço para veres as coisas como são. Sei que vais fugir assustado com o que vais encontrar por trás do pano. Mas mesmo assim, peço-te. Não acredites nas minhas mentiras.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

White memories

Maybe I know enough to talk with you forever. But I'm sure I can't write for you or about you for more then a few lines. 'Cause our worlds, even thought you're so close that I can actually touch you (just for a second, without you noticing, even thought you were the one who reached for me), are very far apart. So I'll keep it simple. And say what I wanted to say when I felt that you're real. That you don't live only in my dreams.

I could marry your blue eyes.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Escreves para mim, sem saberes

Pergunto-me o que fazes aí enquanto eu, sem saberes, espero por ti. Sei, por já te ler tão bem, que te sentes feliz. Talvez feliz seja demais. Já muito se passou desde que morrias aqui. Já muito cresceste desde que não sabias que chão pisar. Hoje sei que te sentes feliz aí, mas que deixaste muito aqui. Deixaste que as coisas, que as pessoas se tornassem importantes. Como eu espero, sem saberes, ser importante para ti. Deixaste-as fazerem parte de ti e agora não sabes o que é mais certo sentir. Por isso sei que te sentes bem, que te sentes em casa, mas que não deixas de pensar na vida a que te permitiste deste lado do mundo. Sei que o dia em que tiveres que escolher te consome. Sei, como ninguém, que estás tão longe de decidir. E espero, sem saberes, quando esse dia chegar, poder dar-te a mão e ir para onde escolheres, poder estar ao teu lado na vida que decidires. Sei, como só eu e tu sabemos, como sentes esse amor. E só eu sei porque é que o agarras com tanta força. Porque tu não sabes, não sabe ninguém, quanto tempo mais o podes agarrar, porque nunca o vais poder prender. O que eu não sei é o que sentes quando as ondas te rebentam nos pés. Surpresa? Ou já conheces tão bem esse mar que nenhuma distância vos separa? Sentes esse mar quando aqui estás? Quando alguma coisa te corre mal, fechas os olhos e sentes esse mar? O que eu não sei é se o cheiro te é familiar ou se te surpreende a cada esquina. O que eu não sei é se a sensação é sempre a mesma, essa sensação que só podia ser tua, que por mais que me tentes transmitir e que por mais que a queira receber, por ser tão tua, por ser uma parte tão importante de ti, como eu, sem saberes, espero ser, não consigo. Não consigo sentir o que tu sentes. Não conseguir sentir o calor da casa, o amor da família, a vida inteira que pões nas palavras. E nos olhos. Ligaste-me. Ligaste-me e não fui capaz de atender o telefone. Não fui capaz porque estás longe há tanto tempo. Não atendi porque não iria ser capaz de não te dizer que penso em ti. Que te vejo onde não podes estar, que te obrigo a ocupar lugares que não são teus, que falo contigo. É tão fácil falar contigo. E tu sabes que não iria ser capaz de te dizer isto, porque sou capaz de te querer, mas incapaz de mudar. Por isso não atendi o telefone. Imagino-te do outro lado da linha, com o impaciente tom de chamada a copiar-te o sentimento. E a arranjar uma desculpa. Eu nunca tenho atenção ao telefone, não é assim? Prefiro que penses isso. E que não me voltes a ligar. Sei que não vais voltar a ligar-me. Olho para o telefone e enquanto espero uma chamada tua que nunca virá, penso no que estás a fazer aí, enquanto eu, sem saberes, espero por ti.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Paragem cerebral 1.0

Estou farta de esperar pelo que ainda não tenho. Cansada, mesmo. De resto está tudo bem. Acho eu.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Ensaio sobre a estupidez de uma porta

Onde está a porta? Onde está a porta que separa as disposições? Onde ela está, porque quero voltar a passar por ela. Devia ser fácil de encontrar, devia ser só virar-me para trás e ela estaria mesmo ali à minha frente. À minha espera. A dizer-me, vem, passa por mim e sorri outra vez, mas quero que sorrias sem pensar duas vezes, sem medo que achem o teu riso fácil. Mas o meu riso é fácil. É fácil e com ele é fácil mascarar outras coisas que sinto. Medo de não estar mesmo aqui. Medo que pensem que estou sempre aqui. Medo que não gostem mesmo de mim. Como se isso interessasse alguma coisa. Aquilo que vocês pensam de mim, aquilo que vocês sentem por mim. Dou várias voltas sobre mim mesma e continuo sem te encontrar, porta. Continua a falar. Continua a falar para poder seguir os teus conselhos até ti. Algures, nesta vida sem tempo definido, devo ter dado algum passo que me afastou de ti porque já não sou capaz de te encontrar. Vou ter que continuar aqui. Aqui onde o meu riso é falso e fácil. Aqui onde a minha disposição é controlada por vocês. Aqui onde só consigo ser um bocadinho de mim. Este bocadinho que até vos parece aceitável. Vou ter que ficar aqui até poder voltar a acender a luz e, nessa altura, poderei ver-te com clareza. Poderei ver o quanto estou longe de ti. E com sorte poderia reconhecer o caminho que fiz para te deixar tão longe, porta.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Quem muito fala, pouco acerta

As coisas certas raramente acontecem ao mesmo tempo. A pessoa certa, a maneira certa e a altura certa não se conhecem e têm horários completamente diferentes. Aparecem quando lhes apetece, sem autorização e estão-se bem a cagar para o que nós queremos. Aparece a maneira certa, mas a pessoa não podia ser mais errada e a altura é péssima. Conhecemos a pessoa certa, mas, ironia (já dizia a Alanis...), a pessoa certa já conheceu a sua pessoa certa, o que faz com que a altura e a maneira sejam más. Sabemos que aquela pessoa iria fazer as coisas da maneira certa, a altura é certa, mas a pessoa, mais uma vez, é tudo menos a certa. A pergunta que se faz é: qual das coisas certas é a mais certa? Que é como quem diz, qual é o nível de prioridade nas coisas certas? É fácil responder depressa que a pessoa certa é mais importante que tudo, que assim que ela aparece na nossa vida devemos largar tudo e lutar. Eu não concordo. Não acho que se deva dar prioridade às coisas certas. Acho que se deve jogar pela maioria. A verdade é que a pessoa certa aparece sempre sozinha. A pessoa certa aparece sempre na altura errada e da pior maneira. A não ser que se tenha uma grande sorte. E devemos esperar por essa sorte? E por quanto tempo? Continuo a achar que a maioria é que está correcta. A altura é certa, a maneira é certa, a pessoa nem por isso. Paciência, todos temos defeitos. E mais tarde ou mais cedo, todos vamos acabar com uma pessoa com defeitos. Por muito que procuremos a pessoa certa. E mesmo que a encontremos, continuamos a estar com uma pessoa com defeitos. Qual é, então, a diferença?

domingo, 28 de janeiro de 2007

Se calhar até estou um bocadinho gorda...

O que é que nos faz ganhar peso? Somos nós, os hambúrgueres, o chocolate, a Coca-Cola, tudo o que comemos? O que nos faz desistir de comer decentemente, agarrar na primeira porcaria que nos parece comida e fingir que aquilo não nos vai engordar? Quando é que decidimos que não vale a pena ser magro, que ninguém repara muito nisso? O que nos faz pensar que não é por isso que vamos perder o encanto? O que nos faz pensar que mesmo assim vamos continuar a encantar? O que nos leva a olhar para a balança e pensar que é ela que está errada? O que nos levar a olhar para trás, quando éramos elegantes, e achar que não era por isso que éramos mais felizes? O que se passa que no fim do dia ainda temos fome, mesmo que tenhamos estado a comer o dia todo? Porque é que pensamos que seguramente o que nos vai satisfazer é o próximo bolo? Porque é que achamos que nunca mais são horas de comer ? Quando é que começamos a achar que nunca mais vão ser horas de comer? Quando é que ganhamos peso? E se o ganhamos, podemos voltar a perdê-lo?
Não devia ter fome, acabei de comer um cozido à portuguesa.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Podemos encolher sem nos tornarmos pequeninos

No final do dia, o que é que é realmente importante? Naquele bocadinho em que já vemos o sonho, mas ainda temos o olho no mundo de cá. Naquele bocadinho em que o cérebro já só vê a preto e branco e as imagens que nos dá não foram por nós pedidas. Nessa altura, no final do dia, o que é que é realmente importante? O que é que nós mostramos a nós mesmos sem a nossa autorização? O que é que tentamos dizer a nós mesmo quando pensávamos que já tínhamos dito tudo? Não é a relação. Não é, com certeza, aquela relação que ainda não deixa os filmes acabar, que ainda faz rir de coisas parvas e que nos vão irritar no futuro. Não. Não é isso que passa. Não é a afirmação. Não é, com certeza, a luta que travamos todo o dia para mostrarmos que existimos e como existimos tão bem, como somos orgulhosos de nós mesmos, mesmo que o outros não tenham reparado como somos belos, inteligentes e interessantes. Não. Não é isso que passa. Não é a casa que queremos comprar, não é a pessoa especial que queremos encontrar, não são os filhos perfeitos que queremos ter, não são os amigos todos, os que estão, os que já foram, os que ainda vão chegar. Não é, com certeza, isso que passa. O que passa são os nossos desejos mais ardentes, são os nossos maiores medos, é o desejo de amanhã poder ver aquelas pessoas que são realmente importantes, é o medo de amanhã não conseguirmos ver aquelas pessoas que são realmente importantes, é o desejo de sermos mesmo aquilo que queremos ser, é o medo de nunca lá chegar. O que passa é a saudade do pai, da mãe, da irmã, é o desejo de os ver outra vez, mas desta vez, que possa ser para sempre. O que passa é o escritório no edifício alto, a certeza de que aquele é o meu lugar e que ninguém o merecia mais que eu. O que passa é a certeza que temos o universo a conspirar a nosso favor. Porque fizemos por isso e só porque sim, só porque somos nós. O dia está quase a acabar e pergunto-me: no fim deste dia, o que vai ser realmente importante? Quando me deitar na cama, quando fechar os olhos, quando estiver pronta para sonhar, sei que vou ver o mesmo que vi no fim do dia de ontem. Porque, no fim do dia, o nosso coração não é grande, para que caiba toda a gente. Porque, no fim do dia, o nosso coração encolhe e fica do tamanho certo. Do tamanho certo para que só caiba o que é realmente importante.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Um resto de tudo

O que mais gosto nas festas são os restos. Os rissóis geladinhos no pequeno almoço do dia seguinte. A sobremesa de bolo de anos durante uma semana. Os litros de coca-cola na geleira. É por isso que gosto de fazer as festas em casa. Porque posso acordar de manhã e ainda sentir o resto do rebuliço no ar. Porque em todas as divisões há um resto de qualquer coisa que me faz lembrar. O resto do cartão rasgado com a excitação. O resto da loiça que ainda não foi lavada. Aquele resto de chão sujo onde o cansaço da vassoura já não conseguiu chegar. O resto dos jogos que ainda não foram guardados. O resto da sombra com brilhantes na cara que não se tirou para não quebrar o feitiço de beleza da noite anterior, e fazê-lo durar só mais um bocadinho. O resto de todos os cheiros e de todos os momentos que fizeram aquela festa ser especial. O resto de todos os agradecimentos que ficaram por fazer. Obrigada a todos por terem vindo, obrigada a todos por se terem divertido e por me terem divertido a mim, obrigada a todos pela atenção, obrigada a todos por todas as surpresas, obrigada a todos por todos os sentimentos, os vossos e os meus. Obrigada a todos por me mostrarem que há coisas que realmente valem a pena e que o resto é para esquecer. O que mais gosto nas festas são os restos. O resto de bolo de anos e este resto de felicidade. Este resto de perfeição.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

1/4 de século + 2

Obrigada pela primeira mensagem. Obrigada pela emoção. Obrigada pela luz apagada e pela vela acesa. Obrigada pelos parabéns tocados. Obrigada pelo pão de deus em estilo donut em cima das panquecas. Obrigada pelo interesse. Obrigada pelo conforto do pijama. Obrigada pelo voto de confiança e pelo elogio do livro. Obrigada pelo calor do cachecol. Obrigada pela chamada cedinho, cheia de carinho. Obrigada pela chamada logo que o cérebro acordou, nisto tens que acreditar, porque eu acredito. Obrigada pela chamada a meio da manhã, cheia de saudade. Obrigada pela companhia ao almoço, cheia de vontade de lá estar. Obrigada às capacidades que ainda tenho, que nunca pensei que tinha. Obrigada por receberes a minha chamada. Obrigada pelo orgulho na voz. Obrigada por seres o primeiro a quem quis ligar, paizinho. Obrigada por todas as chamadas da tarde, das tias, do primo, da irmã, da segunda mãe. Obrigada por quereres falar outra vez comigo. Obrigada pela piada sempre pronta, a fingir que não tens orgulho. Obrigada por continuares a acreditar em mim depois de tudo, mãezinha. Obrigada por mais um dia com saúde, com amor, com amigos, com família, com tudo que me dão, com tudo que acham que mereço. Obrigada a todos por estarem por aqui, sempre a olhar por mim, sempre a olhar para mim, a verem-me crescer só mais um bocadinho. Obrigada por tudo.