Sentir-me bonita tem a sua graça. Tem o seu quê de disparatado. Porque não posso ser duas pessoas diferentes ao mesmo tempo. Se quando sai de casa vi uma pessoa no espelho, essa pessoa continua lá, não se pode ter ido embora só porque me vejo reflectida nos olhos de alguém. Quando me olhei ao espelho vi as imperfeições. Causadas pelo tempo. Causadas pela alimentação. Causadas pelo modo de vida. Algumas até causadas por mim. As rugas ao pé dos olhos, que parecem engraçadinhas mas que me desmascaram quando tento ter dezoito anos, a barriga não muito grande para se ver debaixo da roupa mas grande o suficiente para estragar qualquer roupa interior, as olheiras bem disfarçadinhas pelas sardas, mas presentes, debaixo dos olhos e na alma, testemunhas das noites sem dormir, da ansiedade, da preocupação, de uma vida pesada demais, as cicatrizes nos joelhos, forçadas a existir para fingir a força, para me sentir viva e a lutar, nem que seja por uma bola. Quando olho para o espelho vejo isso tudo. Por isso é que sentir-me bonita é totalmente ridículo. Porque não posso ser feia e sentir-me bonita, tudo ao mesmo tempo. E onde está a verdade? Onde é que me posso ir buscar? Para onde posso olhar e dizer "sim, esta sou eu"? A rapariga (mulher) que vejo ao espelho diz-me para acreditar nela, porque não está lá mais ninguém e ela só posso ser eu. E eu acredito. Mas quando estou na rua, ela abandona-me. E eu sinto-me bonita. Eu sei que a beleza é subjectiva e que não posso procurar a minha beleza nem em mim nem em mais ninguém. Porque eu posso ser feia e sentir-me bonita e ser bonita e sentir-me feia. Porque os meus olhos, os vossos olhos, as fotografias, os espelhos, tudo isso é mentiroso. E apenas me devolve uma reflexão de mim totalmente costruida à base de amor. Ou na falta dele. Por isso, hei-de sempre ser feia no meu espelho, mas vou sempre conseguir sentir-me bonita.
domingo, 1 de abril de 2007
Medidas de beleza
Sentir-me bonita tem a sua graça. Tem o seu quê de disparatado. Porque não posso ser duas pessoas diferentes ao mesmo tempo. Se quando sai de casa vi uma pessoa no espelho, essa pessoa continua lá, não se pode ter ido embora só porque me vejo reflectida nos olhos de alguém. Quando me olhei ao espelho vi as imperfeições. Causadas pelo tempo. Causadas pela alimentação. Causadas pelo modo de vida. Algumas até causadas por mim. As rugas ao pé dos olhos, que parecem engraçadinhas mas que me desmascaram quando tento ter dezoito anos, a barriga não muito grande para se ver debaixo da roupa mas grande o suficiente para estragar qualquer roupa interior, as olheiras bem disfarçadinhas pelas sardas, mas presentes, debaixo dos olhos e na alma, testemunhas das noites sem dormir, da ansiedade, da preocupação, de uma vida pesada demais, as cicatrizes nos joelhos, forçadas a existir para fingir a força, para me sentir viva e a lutar, nem que seja por uma bola. Quando olho para o espelho vejo isso tudo. Por isso é que sentir-me bonita é totalmente ridículo. Porque não posso ser feia e sentir-me bonita, tudo ao mesmo tempo. E onde está a verdade? Onde é que me posso ir buscar? Para onde posso olhar e dizer "sim, esta sou eu"? A rapariga (mulher) que vejo ao espelho diz-me para acreditar nela, porque não está lá mais ninguém e ela só posso ser eu. E eu acredito. Mas quando estou na rua, ela abandona-me. E eu sinto-me bonita. Eu sei que a beleza é subjectiva e que não posso procurar a minha beleza nem em mim nem em mais ninguém. Porque eu posso ser feia e sentir-me bonita e ser bonita e sentir-me feia. Porque os meus olhos, os vossos olhos, as fotografias, os espelhos, tudo isso é mentiroso. E apenas me devolve uma reflexão de mim totalmente costruida à base de amor. Ou na falta dele. Por isso, hei-de sempre ser feia no meu espelho, mas vou sempre conseguir sentir-me bonita.
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