sábado, 27 de setembro de 2008

Forcat

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Quando uma pessoa está à espera de outra é sempre difícil estar descontraída. Por princípio temos a sensação que estamos a ser observados e se sabemos que alguém vai chegar e procurar por nós, não podemos deixar de ter a certeza que vamos ser observados mais cedo ou mais tarde. A Patrícia estava sentada ao balcão com um copo de whisky à frente. Ainda não lhe tinha tocado. Estava a pensar que devia ter pedido uma 7up quando a pessoa que esperava entrou no bar e se pôs a observá-la. Como que sentindo isso mesmo levantou os olhos e reconheceu a cara que já não via há uns anos e não conseguiu evitar sorrir. Porque apesar de tudo estava feliz com este encontro. Ansiosa, mas feliz. Quando a pessoa se aproximou dela, a primeira coisa que se lembrou de dizer não foi olá. Foi "desculpa".


Patrícia

A Joana sempre teve este efeito em mim. Já não a via há seis anos. E mesmo assim sinto neste momento exactamente o que sentia quando ainda éramos umas miúdas. Sinto-me pequenina, sem sal e vá, uma bestinha. Não é por ela ser mais alta que eu, que é. Não é por ela ser mais bonita que eu, que é. Nem é por ela ser um doce, que é. É porque houve uma altura da minha vida que sentia que se andasse muito juntinha a ela, se nunca a largasse, quase que me sentia a ficar melhor pessoa. Quase que me sentia como ela. Quase perfeita. Foi por isso que agora que está aqui e que me lembrei de tudo que lhe fiz, ou melhor, do que não fiz, a única palavra que consegui que me saísse da boca foi "desculpa". Desculpa minha querida, por não ter sido o tudo que merecias quando te encontraste com os teus nadas, desculpa minha linda por ter fugido de ti quando não precisavas de mim, e de não voltar quando estavas a morrer por dentro. E desculpa por permitir que ainda assim gostes de mim. Mas só disse "desculpa".


Joana

Meus Deus, como é bom ver a Patrícia. Ali está ela, com aquela aura de nervoso miudinho que ela sempre teve. Lembro-me bem da altura em que éramos inseparáveis e imparáveis. Muitas festas de faculdade, muitos corações partidos, nossos, deles... Mais nossos, que somos umas românticas. Não consigo evitar sorrir, porque estou muito feliz de poder vê-la depois de tanto tempo. Já me viu e também está a sorrir. Sim, gostamos muito uma da outra. Houve uma altura em que ela se afastou um bocado para perseguir um sonho e que me senti tão sozinha, mas só queria vê-la feliz e ela era feliz. Mesmo que o final não o tenha sido. Estou quase a chegar ao pé dela e de repente vejo qualquer coisa nos olhos dela e quando dou por mim estou a ouvir uma coisa que não entendo. Parece-me "desculpa".



-Anda, vem comigo.
-Onde?
-Vamos sentar-nos naquela mesa ali ao fundo, ao pé da máquina dos cigarros.
-Tu sabes que eu não fumo.
-Não te preocupes, há ali um ventilador por cima, nem vais sentir o cheiro dos cigarros. O quê que queres beber?
-Pode ser uma imperial.
-Eu vou pedir ao balcão. Agora senta-te aí quietinho e olha para aquelas duas brasas abraçadas ao pé do balcão.
-O quê que tem?
-Man, o quê que te parece que são uma à outra?
-Sei lá. Duas amigas que gostam muito uma da outra, mas por qualquer razão já não se viam há algum tempo?
-Epá, és tão cromo. Eu já volto e já te explico umas coisas. Amigas! És mesmo tapado.
-Olha, desculpa, 'tá?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Já sei de cor todas as canções de amor


I'm so tired of being here suppressed by all my childish fears.
What do I do when lightning strikes me?
Guess I've mistaken you for somebody else.
It's not the same, no it's never the same.
But somehow I'm still alive inside, I don't know how, but I don't even care.
Só sei que fica tarde e eu tenho de ir.
This time, this place, misused, mistakes, too long, too late.
All of the memories, so close to me, just fade away.
I'll never know what the future brings.
I don't worry because everything's going to be alright.
Leave all this to yesterday.
I'm sure that that makes sense.
Sem ter defesas que me façam falhar.



Mas é bom ouvir e cantar, seja a solo, seja em duetos rodoviários, seja em modo lead singer, "Sei de cor" e sentir... rigorosamente nada.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ponto de vista de uma vida de vidro

Eu não tive culpa. Se bem que se diga que nestas alturas que ninguém tem culpa, eu sei que não tive de certeza. Nem posso dizer que o meu único pecado foi deixar-me estar. Não tinha outra opção. Fui feito verde, cilíndrico, inanimado. Mesmo este pedaço da minha história que vos conto, bem, não sou mesmo eu que vos conto. É só alguém que precisa de criar as perspectivas de um ponto de vista. Mas como estava a dizer, não tive culpa nenhuma. Estava em cima da mesa. Há uns dois, três dias, talvez. O que posso dizer, sou um pedaço de vidro preguiçoso. Mas também posso dizer, e isto sim é mais verdade, é que nunca me foi dado a escolher. E mesmo que pudesse escolher, não sei se sairia dali. Nunca podia prever o que estava para acontecer. E além disso gostava da companhia. Se bem que tenha saído do cartão para as mão dela, sei que os seus dedos eram os mais delicados. Mãos pequenas mas firmes. Mãos de menina com força de mulher. Sei que a boca dela era a mais doce. Eu sei que doce era o que tinha dentro de mim, e que nunca poderia saber ao que saberia a boca dela se não tivesse zonzo por causa de tanto açucar. Mas não interessa. Sentia a antecipação nas suas mãos de princesa e sentia todo o prazer que lhe entrava pela boca. Mas num dia algo de estranho aconteceu. As suas mãos começaram a pegar-me com menos firmeza. Sim, foi assim que tudo começou. Tudo começou com uma fraqueza que concerteza lhe atacava o coração, mas que eu só podia sentir nos seus dedos e imaginar o que seria. Tive a certeza que algo de muito errado se passava quando senti gotas de sal no meu interior antes tão doce. E senti então uma parte dela que não sabia que existia. Senti a dureza dos seus dentes, senti que me mordia de desespero, porque as lágrimas que vertia para dentro de mim estavam a agir contra a vontade dela. Nessa altura ainda não imaginava que sofria tanto e que eu ía também fazer parte desse sofrimento. De repente senti um aperto e soube que a força com que me voltava a segurar nada tinha a ver com segurança ou independência. Era uma mistura amarga do sal dos seus olhos e do aperto que, imagino eu, estivesse a sentir no seu coração. De repente deixei de a sentir, deixei de sentir qualquer tipo de sustento e senti-me a voar. Uma sensação de liberdade por meros segundos, para depois me encontrar com algo duro e desfazer-me em mil bocados. E foi só quando me encontrei no chão por todo o lado é que consegui compreender completamente como se sentia o coração dela.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

In Her Shoes


"I carry your heart with me (i carry it in my heart)
I am never without it (anywhere i go you go, my dear;
and
whatever is done by only me is your doing, my darling)
I fear no fate (for you are my fate, my sweet)

I want no world (for beautiful you are my world, my true)

And it's you are whatever a moon has always meant
and
whatever a sun will always sing is you.

Here is the deepest secret nobody knows

(here is the root of the root and the bud of the bud
and
the sky of the sky of a tree called life;
which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
And this is the wonder that's keeping the stars apart

I carry your heart (i carry it in my heart)"


EE Cummings

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Re-Tratamento

" Marshall: Oh não, não tenho os meus votos.

Lily: Também não tenho os meus.

Ted: Não precisam dos votos. Apenas digam porquê que se amam.

Marshal: Lily, tenho milhões de razões para te amar. Fazes-me rir e tratas de mim quando estou doente. És amorosa, atenciosa e até deste o meu nome a uns ovos. Ela põe uns condimentos italianos nos ovos mexidos antes de os cozinhar. Chamam-se "Ovos Marshall" e são brutais. Mas a principal razão para te amar é que és a minha melhor amiga, Lily. És a melhor amiga que alguma vez tive.

Lily: É a minha vez. Marshall, eu amo-te porque és engraçado e fazes-me sentir amada e fazes-me sentir segura e quando fizemos um ano deste-me uma camisola que diz "Lily and Marshall. Rockin' It Since '96". Acho que gostava de a ter vestida agora, porque cheira a ti. Mas a principal razão para te amar, Marshall Ericksen, é que me fazes feliz. Fazes-me feliz sempre."

Acho que andamos tão rápido na estrada, olhando só para a frente, que às vezes perdemos a percepção de certas coisas. Perdemos alguns valores e perdemos a noção do que é realmente importante. Andamos numa corrida doente para tentarmos ser bonitos quando isso não interessa nada, só interessa quem nós somos. Um banho por dia, uma escova no cabelo, a roupa que mais nos agrada, um sorriso na cara e uma pitada de nós mesmos é mais que suficiente e para quem não chegar, paciência. Passamos o dia a esforçarmo-nos para ser uma coisa que, no fundo, não tem metade do interesse do que aquilo que realmente somos.

Finalmente aprendi que a pessoa certa e que o amor da nossa vida nem sequer são a mesma coisa. Podem ser a mesma pessoa, mas a verdade é que raramente isso acontece. O amor da nossa vida é a pessoa por quem mais choramos e a pessoa que nos fez mais feliz e a pessoa que conseguia fazer-nos atingir esses dois picos no mesmo minuto. A pessoa certa é aquela que melhor nos sabe amar, cuidar de nós, aquela que nos dá segurança sem ser preciso falar. O amor da nossa vida é um carrossel de emoções enquanto que a pessoa certa é a calma antes da tempestade, depois da tempestade e é a mão que agarramos durante a tempestade. O amor da nossa vida ser a pessoa certa para nós é um jackpot cósmico. Mas possível. De qualquer maneira só existe uma maneira de sabermos quem é o amor da nossa vida e quem é a pessoa certa para nós. É preciso morrer. Nessa altura, olhamos para dentro de nós e vemos todas as cicatrizes que o amor da nossa vida nos deixou. Olhamos para fora e lá está ela. A pessoa certa.

Aquela que não olhou para os nossos defeitos e agradeceu-nos por não termos olhado para os dela. Não aquela que achava que não tínhamos defeitos e que nós achávamos perfeita.

Aquela que sempre nos soube dizer as coisas certas na altura certa. O bom e o mau. Não aquela a quem nunca foi preciso dizer nada, que sempre adivnhou os nossos desejos mais permentes.

Aquela que nos disse que tínhamos graça por piadinhas pequenas, aquela que nos disse que estávamos lindos num dia mau e que nos disse que éramos a pessoa mais bonita deste mundo num dia em que realmente nos esforçamos por isso. Não aquela que se ria às gragalhadas connosco por tudo e por nada, não aquela que todos os dias se ofuscava com o nosso brilho. O bom e o mau.

Aquela com quem conseguiamos dormir uma noite inteira abraçados sem acordarmos com o pescoço dorido. Não aquela com quem desejavamos dormir todas as noites e que com quem todas as noites deviam ser infinitas.

Aquela que nunca nos fez sofrer, ou se fez, estava lá para tratar das nossas feridas. Não aquela que nos fez sofrer que fizemos sofrer, porque o amor, a paixão e a pressão eram tão grandes que até doía. Tudo doía. O bom e mau.

Aquela que nunca foi embora. Não aquela que foi, veio, foi e veio, e entre essas viagens nunca sabiamos se ía voltar ou se ía voltar a ir embora.

O amor da nossa vida e a pessoa certa podem parecer, à primeira vista, muito parecidos, mas a diferença é a coisa mais importante para o nosso coração. A pessoa certa faz-nos felizes. Sempre.