Eu não tive culpa. Se bem que se diga que nestas alturas que ninguém tem culpa, eu sei que não tive de certeza. Nem posso dizer que o meu único pecado foi deixar-me estar. Não tinha outra opção. Fui feito verde, cilíndrico, inanimado. Mesmo este pedaço da minha história que vos conto, bem, não sou mesmo eu que vos conto. É só alguém que precisa de criar as perspectivas de um ponto de vista. Mas como estava a dizer, não tive culpa nenhuma. Estava em cima da mesa. Há uns dois, três dias, talvez. O que posso dizer, sou um pedaço de vidro preguiçoso. Mas também posso dizer, e isto sim é mais verdade, é que nunca me foi dado a escolher. E mesmo que pudesse escolher, não sei se sairia dali. Nunca podia prever o que estava para acontecer. E além disso gostava da companhia. Se bem que tenha saído do cartão para as mão dela, sei que os seus dedos eram os mais delicados. Mãos pequenas mas firmes. Mãos de menina com força de mulher. Sei que a boca dela era a mais doce. Eu sei que doce era o que tinha dentro de mim, e que nunca poderia saber ao que saberia a boca dela se não tivesse zonzo por causa de tanto açucar. Mas não interessa. Sentia a antecipação nas suas mãos de princesa e sentia todo o prazer que lhe entrava pela boca. Mas num dia algo de estranho aconteceu. As suas mãos começaram a pegar-me com menos firmeza. Sim, foi assim que tudo começou. Tudo começou com uma fraqueza que concerteza lhe atacava o coração, mas que eu só podia sentir nos seus dedos e imaginar o que seria. Tive a certeza que algo de muito errado se passava quando senti gotas de sal no meu interior antes tão doce. E senti então uma parte dela que não sabia que existia. Senti a dureza dos seus dentes, senti que me mordia de desespero, porque as lágrimas que vertia para dentro de mim estavam a agir contra a vontade dela. Nessa altura ainda não imaginava que sofria tanto e que eu ía também fazer parte desse sofrimento. De repente senti um aperto e soube que a força com que me voltava a segurar nada tinha a ver com segurança ou independência. Era uma mistura amarga do sal dos seus olhos e do aperto que, imagino eu, estivesse a sentir no seu coração. De repente deixei de a sentir, deixei de sentir qualquer tipo de sustento e senti-me a voar. Uma sensação de liberdade por meros segundos, para depois me encontrar com algo duro e desfazer-me em mil bocados. E foi só quando me encontrei no chão por todo o lado é que consegui compreender completamente como se sentia o coração dela.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Ponto de vista de uma vida de vidro
Eu não tive culpa. Se bem que se diga que nestas alturas que ninguém tem culpa, eu sei que não tive de certeza. Nem posso dizer que o meu único pecado foi deixar-me estar. Não tinha outra opção. Fui feito verde, cilíndrico, inanimado. Mesmo este pedaço da minha história que vos conto, bem, não sou mesmo eu que vos conto. É só alguém que precisa de criar as perspectivas de um ponto de vista. Mas como estava a dizer, não tive culpa nenhuma. Estava em cima da mesa. Há uns dois, três dias, talvez. O que posso dizer, sou um pedaço de vidro preguiçoso. Mas também posso dizer, e isto sim é mais verdade, é que nunca me foi dado a escolher. E mesmo que pudesse escolher, não sei se sairia dali. Nunca podia prever o que estava para acontecer. E além disso gostava da companhia. Se bem que tenha saído do cartão para as mão dela, sei que os seus dedos eram os mais delicados. Mãos pequenas mas firmes. Mãos de menina com força de mulher. Sei que a boca dela era a mais doce. Eu sei que doce era o que tinha dentro de mim, e que nunca poderia saber ao que saberia a boca dela se não tivesse zonzo por causa de tanto açucar. Mas não interessa. Sentia a antecipação nas suas mãos de princesa e sentia todo o prazer que lhe entrava pela boca. Mas num dia algo de estranho aconteceu. As suas mãos começaram a pegar-me com menos firmeza. Sim, foi assim que tudo começou. Tudo começou com uma fraqueza que concerteza lhe atacava o coração, mas que eu só podia sentir nos seus dedos e imaginar o que seria. Tive a certeza que algo de muito errado se passava quando senti gotas de sal no meu interior antes tão doce. E senti então uma parte dela que não sabia que existia. Senti a dureza dos seus dentes, senti que me mordia de desespero, porque as lágrimas que vertia para dentro de mim estavam a agir contra a vontade dela. Nessa altura ainda não imaginava que sofria tanto e que eu ía também fazer parte desse sofrimento. De repente senti um aperto e soube que a força com que me voltava a segurar nada tinha a ver com segurança ou independência. Era uma mistura amarga do sal dos seus olhos e do aperto que, imagino eu, estivesse a sentir no seu coração. De repente deixei de a sentir, deixei de sentir qualquer tipo de sustento e senti-me a voar. Uma sensação de liberdade por meros segundos, para depois me encontrar com algo duro e desfazer-me em mil bocados. E foi só quando me encontrei no chão por todo o lado é que consegui compreender completamente como se sentia o coração dela.
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