Não é difícil seguir os meus passos. Sou tão previsível quanto a minha necessidade de organização me obriga. A minha vida é igual a qualquer ano, a qualquer mês, a qualquer das vinte e quatro horas de qualquer dia, partidas em qualquer dos três mil e seiscentos segundos de qualquer um dos meus minutos. Tão certo como evitar números. Tão certo como não saber viver sem eles. Tão fatal como o destino em que não acredito. Mas há alturas em que tenho que largar tudo para ter mãos para conseguir agarrar alguma coisa. Há momentos em que preciso de permitir algum caos em mim, alguma desordem descontrolada, na esperança de me permitir algum rearranjo de prioridades. Só assim posso falar abertamente sem correr o risco de ser entendida. Porque mesmo querendo ser compreendida, prefiro ser deixada em paz, prefiro ser a única medir as minhas vitórias, porque só assim vou poder ser a única a pesar todos os meus fracassos. Eu sei que sou capaz de passar por tudo isto, por isso recomecei sem dizer a ninguém. Não vou dizer a ninguém até ter terminado e será, pelo menos uma vez, uma coisa minha. Terei, pelo menos uma vez, um segredo. Uma coisa pequena. Mas minha. De resto está acabado. Porque tem que estar. Há tanta coisa que eu não sei e seria de esperar que aquelas que sei que tenho a certeza que sei fossem tratadas com a importância devida, mas por vezes tenho espaço demais e preencho-o erradamente. Apaguei tudo e sei que está acabado. Posso continuar a escrever mas sei que em breve também vai acabar, é só uma questão de tempo, das palavras certas, das pausas certas, dos pontos finais nos parágrafos certos. Escrever é fácil. Não me devia ser permitido fazer mais que isso. Queria só ter que fazer isso. Se fosse só isso... Sei onde começa o resto da minha vida. Não sei se vou chegar lá como quero. Tenho que me preparar para isso. Ainda não estou pronta. Posso nunca ficar. Posso não conseguir viver com isso. Sei o que ia perder a tentar e sei que só penso nisso porque não o posso fazer. Mas num mundo em que às vezes me parece que já perdi quase tudo, gosto de pensar que talvez ai encontrasse uma saída. Na verdade é muito fácil seguir os meus passos. Sou tão previsível quanto a minha necessidade de organização me obriga. A minha escrita é igual à minha vida, partida em qualquer dos sessenta segundos de importância que dou às coisas. Há alturas em que tenho que largar tudo para ter força para conseguir agarrar alguma coisa, mas o máximo que me consigo permitir é um descontrolo ordenado.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Making it work when it hurts
Não é difícil seguir os meus passos. Sou tão previsível quanto a minha necessidade de organização me obriga. A minha vida é igual a qualquer ano, a qualquer mês, a qualquer das vinte e quatro horas de qualquer dia, partidas em qualquer dos três mil e seiscentos segundos de qualquer um dos meus minutos. Tão certo como evitar números. Tão certo como não saber viver sem eles. Tão fatal como o destino em que não acredito. Mas há alturas em que tenho que largar tudo para ter mãos para conseguir agarrar alguma coisa. Há momentos em que preciso de permitir algum caos em mim, alguma desordem descontrolada, na esperança de me permitir algum rearranjo de prioridades. Só assim posso falar abertamente sem correr o risco de ser entendida. Porque mesmo querendo ser compreendida, prefiro ser deixada em paz, prefiro ser a única medir as minhas vitórias, porque só assim vou poder ser a única a pesar todos os meus fracassos. Eu sei que sou capaz de passar por tudo isto, por isso recomecei sem dizer a ninguém. Não vou dizer a ninguém até ter terminado e será, pelo menos uma vez, uma coisa minha. Terei, pelo menos uma vez, um segredo. Uma coisa pequena. Mas minha. De resto está acabado. Porque tem que estar. Há tanta coisa que eu não sei e seria de esperar que aquelas que sei que tenho a certeza que sei fossem tratadas com a importância devida, mas por vezes tenho espaço demais e preencho-o erradamente. Apaguei tudo e sei que está acabado. Posso continuar a escrever mas sei que em breve também vai acabar, é só uma questão de tempo, das palavras certas, das pausas certas, dos pontos finais nos parágrafos certos. Escrever é fácil. Não me devia ser permitido fazer mais que isso. Queria só ter que fazer isso. Se fosse só isso... Sei onde começa o resto da minha vida. Não sei se vou chegar lá como quero. Tenho que me preparar para isso. Ainda não estou pronta. Posso nunca ficar. Posso não conseguir viver com isso. Sei o que ia perder a tentar e sei que só penso nisso porque não o posso fazer. Mas num mundo em que às vezes me parece que já perdi quase tudo, gosto de pensar que talvez ai encontrasse uma saída. Na verdade é muito fácil seguir os meus passos. Sou tão previsível quanto a minha necessidade de organização me obriga. A minha escrita é igual à minha vida, partida em qualquer dos sessenta segundos de importância que dou às coisas. Há alturas em que tenho que largar tudo para ter força para conseguir agarrar alguma coisa, mas o máximo que me consigo permitir é um descontrolo ordenado.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Gosto de ti porque...
... se não fosses tu eu não nascia... se não fosses tu eu não comia
... se não fosses tu eu não ia à escola
... se não fosses tu eu não era esperta
... se não fosses tu eu não tinha oportunidades
... se não fosses tu eu não crescia
... se não fosses tu eu não tinha força
... se não fosses tu eu não tinha chão
... se não fosses tu eu não tinha tecto
... se não fosses tu eu não tinha coração para te dizer que te amo daqui até ao Japão.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Escudos
É assim que começa. Perco o chão. Perco a noção. Fico sem saber de onde vem tudo, sabendo bem que estou a criar tudo na minha cabeça, que estou a inventar tudo, para sentir o coração a bater, o sangue a fluir, a vida a percorrer-me as veias. Escolho a banda sonora, deixa-a entranhar na pele. Faço uma colecção de imagens meias reais, meias vividas, muito imaginadas. Antes que consiga perceber o que me estou a fazer, estou a viver num filme que eu própria produzi e realizei, onde sou a única protagonista, em que todos os outros são apenas figurantes apanhados sem saber como na minha demência, na minha necessidade de ter o volume no máximo. Do nada cria-se uma felicidade com vida própria que sem mais nem menos se transforma em dores reais, porque não há no mundo nada que se compare ao que quero sentir. E de repente já nada me chega, já nada me é indiferente, conversas de mensagens vazias já não me fazem acreditar que sou importante.Perco-me em mim e sinto a necessidade urgente de fugir da bolha que criei, já povoada por actores de livre arbítrio. Mas quando vejo que já não sou eu que controlo as saídas, perco a cabeça. Perco o norte no meu próprio mundo e procuro em vão onde me agarrar, mas a sensação de estar a cair outra vez é pungente e deixa-me sem ar. Começo a lutar como sei, a inflingir golpes às cegas, acertando exactamente onde quero com uma precisão cirúrgica. É assim que começa. Não tenho chão. Nem noção.
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