Bem cedo percebi que tinha que crescer. Todos nós temos maneiras diferentes de nos defender e bem cedo desenvolvi mau feitio. Quanto menos pessoas deixar que se aproximem de mim, menos são as hipóteses de me fazerem sofrer. E se acabarem por ficar por perto é porque acabaram por gostar de mim pelo que sou. É por isso que sou a pessoa a quem ligam de dia, à tarde e a meio da noite e sabem que vou pegar no carro e vou fazer o que puder. É por isso que sabem que tenho sempre o telefone ligado, que respondo às mensagens em tempo real, que atendo todas as chamadas, mesmo que o número seja anônimo. E vou fazer o que puder. Apenas peço aos outros que sejam os amigos que eu sou. Mas bem cedo percebi que o meu mau feitio, esse que me defende, é desculpa para muita coisa. Quando alguém se chateia comigo a primeira pergunta que oiço é "o quê que fizeste?". Sou bruta, sou brusca, sou intempestiva, facilmente irritável e mal educada. Por isso, se alguma vez me fizerem mal e alguém vos for confrontrar, digam apenas "sabes como é o feitio da Ana". Passam a ter razão. Vale tudo e podem fazer tudo porque no fim a culpa vai ser minha. Basta dizerem "sabes como é a Ana". Fazem-me falta as pessoas que se revoltam contra as injustiças. As minhas injustiças. Não me chega que concordem que é injusto. Faz-me falta que batam o pé. Faz-me falta ter pessoas ao lado quando fui magoada. Faz-me falta que lutem por mim, que me defendam, que achem que valho pelo menos isso. Acabo por perder sempre por alguém mais fraco, porque aparentemente, sei defender-me. Se vou estar sozinha, mais vale estar preparada para isso à partida.