segunda-feira, 30 de novembro de 2009

The way you see me

Hoje é um daqueles dias. Daqueles dias em que falho um pé ao sair da cama e agradeço não dormir muito longe do chão. Daqueles dias em que o shampoo cai em todo o lado menos na minha mão. Daqueles dias em que falho o caixote do lixo. Duas vezes. Daqueles dias em que tento por os óculos de sol enquanto como uma maçã e de repente tenho maçã nos óculos, maçã na blusa, maçã da mão até ao cotovelo e óculos de sol no chão. Daqueles dias em que espirro enquanto ando e tropeço, não sei se em mim mesma, ou se no ar. Não é um dia mau. É só um daqueles dias.

Daqueles dias em que ponho a música nos phones no máximo e tento esquecer tudo. Com medo que tudo se esqueça de mim. Daqueles dias em que outro cheiro me parece enxofre, que outra proximidade me parece errada e outro toque me faz querer gritar “Porra, parem de me pisar, empurrar e de chocar contra mim!”. Mas quando abro a boca o momento já passou. Sem raiva. Daqueles dias em que prendo o cabelo todo e me esqueço dos brincos. Sem interesse. Daqueles dias em que agradeço saber o caminho de cor, mas quando chego vejo que demorei quase o dobro do tempo e me pergunto onde me perdi. Sem noção. Daqueles dias em que dou um passo para o lado para me desviar do buraco e acerto em cheio na lama. Sem reflexos. Daqueles dias em que, a meio do caminho, reparo que não está sol mas eu estou de óculos escuros, e passado um bocado me pergunto porquê que o dia me parece tão escuro só para reparar que não tirei os óculos. Daqueles dias em que passo o dia a olhar para o telefone e fico agradecida por estar calado, mas sem saber porquê que está calado. Sem respostas. Daqueles dias em não me apetece chorar, não me apetecer rir, não me apetece fingir que estou bem, nem explicar que não estou mal. Só dormente. Sem sentidos. Daqueles dias em que não quero lembrar-me das últimas coisas que disse, das últimas coisas que ouvi, da forma que tomaram com o tempo, com o significado que lhes tirei sem querer, sem saber, tarde e que me deixou sem vontade de retaliar. Sem fogo. Daqueles dias em que o que sinto parece fome só por ser também vazio. Sem instintos além do de acabar o dia.