Sempre tive uma relação complicada com o tempo. Talvez porque numa certa altura da minha vida decidi ignorá-lo e portar-me como se tivesse todo o tempo do mundo. Acho que o enfureci, porque de há algum tempo para cá, o tempo tem-me obrigado a estar consciente da sua presença. Dez anos é uma vida, seis meses são cinco minutos, trinta anos depois já é tarde demais, nove anos antes era muito cedo. Brinquei com todo o tempo que tinha e o tempo castigou-me. Mostrou-me que tudo tem o seu tempo, que o tempo é sempre curto, que o que queremos demora sempre muito tempo. Passa por mim rápido quando quero ficar mais um bocado de tempo. Arrasta-se numa velocidade parada quando só quero que o tempo acabe. Gostava de fazer as pazes com o tempo que ainda me resta. Gostava de poder pedir-lhe que ficasse mais tempo quando estou contente e gostava de poder pedir-lhe que se despachasse quando tudo parece estar a cair. Hoje gostava que o tempo voasse. Gostava que pegasse em tudo e que passasse rápido como uma bala. Gostava que não se demorasse tanto. Que não me obrigasse a sentir tanto. Que não me obrigasse a sentir tudo. Mas o tempo continua zangado comigo. Porque me quer mostrar que preciso dele. Porque me quer mostrar que precisava de mais tempo. Porque me quer mostrar que às vezes é preciso ainda mais tempo. Porque me quer mostrar que quando quero não me devia faltar tempo. Porque me quer mostrar que só estou a perder tempo quando penso que estou a fazer tempo. O tempo não se faz, o tempo não se transforma. O tempo gasta-se. E o tempo é da opinião que já perdi muito tempo a pensar no que faria se tivesse mais tempo.Amo-vos muito, pai e mãe. Foi o tempo que me ensinou que, para dizer estas coisas, vai-se sempre a tempo.
