terça-feira, 15 de maio de 2007

Só mais este

O mundo está perdido. As pessoas não se esforçam. Fazem só o que têm mesmo que fazer para não serem apanhadas em falta. Ouvem-nos (na diagonal), dão-nos uma palmadinha nas costas e aqui vai disto. Até manhã que agora tenho mais que fazer. Se nos ouvissemos uns aos outros com mais atenção, era bem melhor. Dispensavamos aqueles consenhos (sim, o mais provável é estar mal) do género "força" ou "aguenta-te" ou ainda "o tempo cura tudo". Se nos ouvissemos mesmo uns aos outros, eramos capazes de nos sair com coisas mais originais. E até eramos capazes, mesmo que sem querer, de ajudar mesmo! Sim, eu sei. Eu sei que a ideia de dar um conselho (assim só erro uma vez, qual delas não sei) que realmente sirva para alguma coisa é totalmente absurda, mas é uma coisa que pode acabar por acontecer se dermos às pessoas a atenção que elas merecem. Há alturas em que não é a intenção que conta. Podem pegar nela e metê-la onde o sol não brilha (pai e mãe, peço desculpa, não foi esta a educação que vocês me deram). De boas intenções está o Inferno cheio. Há vezes em que queremos mesmo um apoio. Queremos que fiquem acordados até às duas a ouvir-nos, mesmo que amanhã tenham que acordar às seis. Queremos mesmo que deixem de fazer uma coisa que querem muito só para nos fazerem companhia. Queremos mesmo que se sintam miseráveis connosco e que tenham vontade de bater a quem provoca a nossa tristeza. Queremos mesmo que se esforcem. É só mais um bocadinho. Vai começar a custar muito menos quando receberem o mesmo em troca. O mundo está perdido. As pessoas já não querem saber umas das outras.

Agora vou mesmo dormir. Está a ser uma noite muito difícil. Estou muito revoltada com as pessoas em geral e com a falta de atenção em particular. Beijinhos.

Mas antes de ir (pensavam que se livravam de mim!) queria só partilhar uma coisa que acabou de me ocorrer. Acho que toda a gente conhece aquela anedota em que Deus está a distribuir as riquezas pelo mundo e tudo que sobra põe em Angola. Se alguém não souber que se dirija a mim que terei todo o prazer em contar. Ora, tomei a liberdade de fazer uma pequena adaptação:

"Deus, no dia oito de Janeiro de 1980 está a distribuir as capacidades pelas criancinhas que vão nascer. Distribui as capacidades científicas por um grupo de crianças e como lhe sobra um bocadinho põe na Ana Faria que viria a nascer nesse dia pela hora do almoço numa qualquer maternidade do Sambizanga. Distribui as capacidades literárias por outro grupo de crianças, mas como lhe sobra um bocadinho, põe na já referida Ana Faria. Distribui as capacidades para o desporto por outro grupo de crianças, mas mais uma vez sobra-lhe um bocado, por isso, volta a pôr na Ana Faria. Distribui a beleza por outro grupo e como também lhe sobra um bocadinho (bem mais pequeno que os bocados acima referidos), toca de pôr na Ana Faria. Um anjo, intrigado, pergunta:
- Deus nosso senhor, não acha que essa criança sardenta de caracol rebelde está a ficar com muitas capacidades?
Ao que Deus lhe responde:
- Já vais ver a merda de feitio que lhe vou dar."

Mais uma vez preciso de pedir desculpas aos meus pais. O palavrão que escrevi foi-me ensinado já depois dos dezoito anos, já não vivia em casa. Não foi mesmo esta a educação que me foi dada.

Agora é que é mesmo a sério.

Parece um pedido de desculpas mas não é, é um pedido de salvamento, acho eu

Eu não gosto de: erros ortográficos; peixe frito; dormir demais; pessoas que sabem tudo; me sentir limitada; arrumar a roupa; pessoas difíceis; sabonetes com cheiro a côco; canela; unhas compridas; me sentir confusa; lagartixas; chocolate escuro; filmes de guerra; pessoas que não lutam; dores que doem por dentro; surpresas; perder; ganhar sem mérito; pessoas com memória curta; sentir-me velha; arrepender-me de tanta coisa; chegar atrasada; faltar a promessas; restos de leite com chocolate; pensar que já fui melhor.

Eu gosto de: todas as pessoas da minha família; poucas pessoas fora da minha família; bróculos com maionese; jogar minas; desafios; ir ao cinema; pessoas com graça; pormenores; cor de rosa; matemática; ligar o rádio assim que acordo; conduzir; falar com o meu sobrinho sobre coisas que ele não entende; saber que tenho nos meus pais todo o apoio que precisei, preciso e vou precisar; pessoas com vontade de saber mais; um jantar com boa companhia; boas conversas; gargaláxias universais; pequenos gestos; olhar para mim e ver que estou melhor.

Eu queria (com urgência): ser mais compreensiva, menos apaixonada, mais paciente, menos fácil, mais controlada, menos perspicaz, mais estável, menos humana, mais orgazinada, menos triste, mais nova, menos vulnerável, mais magra, menos agressiva, mais doce, menos sensível, mais forte, menos menina, mais amável, melhor.

Objectivo do post: escrever qualquer coisa decente depois dos disparates do anterior (totalmente sem sucesso)

Este é o resultado de se escrever só porque se tem um teclado à mão (que piada tão boa!)

Quem sabia que isto ía acontecer ponha a mão no ar!
"Toda a gente cá da casa põe a mão no ar!"

Meu Deus, esta foi mesmo fácil. E má, ainda por cima. Mas eu hoje estou feita uma pessoa muito, mas mesmo muito má. Mesmo uma verdadeira besta à moda antiga. Não percebo o que as pessoas me dizem. E sou má para elas. Já tinha dito que hoje estou mesmo má? E já tinha dito que peço muito?

No fundo no fundo, já todos sabiamos que isto ía acabar assim, não é? Então já não se fala mais no assunto.