quarta-feira, 20 de junho de 2007

Não há tempo a perder

Gostava de ter tempo para me deitar de barriga para cima na minha cama e perder-me a olhar para o tecto. Começar por querer pensar na vida, mas acabar a contar manchas e irregularidades.
Gostava de ter tempo para combinar um jantar e passar o dia inteiro a pensar na excitação. Começar por correr o guarda-roupa todo na cabeça, perder-me a meio e acabar sem saber o que vestir.
Gostava de ter tempo para fazer desporto como se mais nada importasse. Começar com a língua de fora e a arrastar-me (mas sem ninguém ver), mas acabar a querer mais e a puxar mais e morta por fora, sentindo-me totalmente viva por dentro.
Gostava de ter tempo para ler qualquer coisa. Começar com um livro, a meio perceber que conseguia escrever aquilo, largar o livro e pegar no meu. Acabar por escrever. E acabar de escrever.
Gostava de ter tempo para estar uma noite inteira sem fazer nada. Começar por me apetecer jogar minas, passar por me apetecer conversar um bocado, ver um bocado de televisão, ouvir música, voltar a jogar minas e acabar por adormecer totalmente entediada.
Gostava de ter tempo para decidir fugir de repente. Olhar à volta, pegar no que me faz falta e ir até qualquer sítio, pisar areia quente, rebolar na relva, rir-me como uma criança, viver como gente grande.
Gostava de ter tempo para me sentir bem comigo mesma, para não me importar de estar sozinha. Estou sozinha? Não faz mal, tenho tempo para chegar até ti.
Gostava de ter tempo para me perguntar se me faz falta mais tempo. Se esta pressa não é já minha, não faz parte de mim, não me define. Já não sei viver parada. Sou rápida a viver, rápida a sentir, rápida a curar feridas, rápida a abrir novas.
Gostava de ter tempo para parar. Gostava de ter tempo para parar e descobrir que quero viver a correr.

Vou perder um bocadinho de tempo a pôr parágrafos neste texto. Só para ser diferente.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Face to palm, heart to ground

Hoje um cheiro fez-me lembrar uma altura da minha vida que já não me lembrava que tinha existido. Fez-me lembrar de uma pessoa que já fui, tão longe da que sou hoje. Fez-me lembrar de como era frágil. Fez-me lembrar que se aqui estou hoje, foi porque nessa altura tive que ser mais forte do que a minha força me permitia. Fez-me pensar que não sei como fui capaz. Como fui capaz de me pôr de pé, continuar de pé e caminhar pela estrada que me trouxe até aqui. Olho para trás e não sei se seria capaz de o voltar a fazer. Olhei para trás e vi tanta coisa. Mais sofrimento do que me lembrava, menos alegrias daquelas que pensei ter. Feridas que sararam escondidas do mundo, gritos mudos do coração e da alma, dias sem rumo à procura de um abrigo. Olhei para trás e consegui ver-me a fazer pinturas de guerra que hoje já não sei apagar e pinturas de sonhos que já não me lembro de ter. Olhei para trás e vi um grande caos. Olho para a frente e penso que depois disto, sou capaz de tudo. Menos de voltar para trás. Talvez por hoje me ter lembrado de como conseguia subir da terra para o céu num segundo, para voltar para o chão em menos de nada, consegui finalmente perceber porque é que o meu copo agora só passa de meio vazio para meio cheio. Um copo cheio é uma vida completa de coisas que mais tarde ou mais cedo vão evaporar, vão deixar o copo vazio e vão deixar-me a mim vazia, vão deixar-me sozinha. Mas quando o céu e a terra se unem por causa do momento em que a razão perde para o coração, não tento explicar o inexplicável, não tento perceber como pôde ser tão rápido, nem me assusto com o sentir que posso tudo e que por um olhar faço tudo. Porque nesse momento sinto que essa loucura me faz falta todos os dias, que um dia sem sentir a respiração parece um ano, um minuto sem ver as certezas no olhar faz-me sentir sem vida. Nessa altura vou deixar o meu dia acabar perfeitamente lamechas ou lamechamente perfeito...

Foste quase tudo para mim, sem saberes

Estive a ler-me de trás para a frente e descobri que tu foste o meu ponto de viragem. Foi o teu jogo que me fez mais cuidadosa. Foi a tua indiferença que me fez presente. Foi o teu interesse que me fez doente. Doente por ti. Foi depois de fazeres o meu coração um trapo que decidi que tinha que parar. Que tinha que encontrar o equilíbrio e a força que tu não tinhas. Tinha que recuperar o equilíbrio e a força que tu me tinhas roubado. Enquanto fugia de ti não fui capaz de reparar que era em direcção a ti que corria. Corri a olhar para trás, contente por já não te ver, só para chocar contra ti. E de novo perdi a cabeça e deixei-me envolver nas tuas conversas de criança que por estúpidos momentos me pareceram uma língua de carinho que só eu conseguia perceber. Perdi-me e esqueci-me de pensar. Voltei a perder-me em ti e por ti. Mas como seria de esperar, não demorou muito até que me voltasses a voltar as costas. Olhei à volta e não vi nada. Não te vi a ti e não vi nada do tudo que tinha. Por ti perdi a cabeça e por ti perdi tudo. Mas por me ter perdido por ti consegui perceber que o tudo que tinha afinal não era nada, nunca tinha sido nada, senão não te teria deixado existir em mim. Foi quando voltaste a ser o meu ponto de viragem. Tinha de encontrar outro tu por quem me perder. O tu que eras já não me chegava.

domingo, 17 de junho de 2007

I'm a hazard to myself

Não sei se é demais ou se sou eu que sou de menos. Não sei se é mesmo muito pesado ou se sou eu que tenho pouca força. Não é só por causa de uma coisa que me deixo escorregar. É por causa de todas. Todas que se tornam todas mais uma e de repente o meu teatro cai. Torna-se insuficiente e eu caio. Eu sou uma pessoa feliz. Nem por um dia duvido disso. São os meus pais, a minha irmã, o meu sobrinho, a minha cusina, os meus primos, as minhas tias, são os meus amigos, é a cabeça, é a cara, é o corpo, é a casa, é o carro, é a saúde, é o açúcar que cristaliza e me emperra as engrenagens, é o tudo que tenho e o nada que me falta. É tudo e eu tenho tudo. Nem por um dia duvido disso. Mas um dia todas as coisas transformam-se em todas as coisas mais uma e eu caio. Então encosto-me ao vidro para ver para fora sem deixar ninguém ver para dentro. Lamento o que tenho que lamentar, lamento o meu maior defeito, sinto a dor no peito, deixo-a ficar durante um bocado porque sentir dor nem sempre faz mal. Deixar-me estar sem forças nem sempre é mau. Faz-me lembrar que tenho mais força que isso e faz-me pensar em toda a força que vou precisar para sair. Limpo a vergonha da cara e desencosto-me do vidro. Levanto a cabeça e que se lixe, mais uma vez. E outra e outra. Não é com a minha tristeza que o mundo vai parar. Não é com a tristeza que o meu mundo vai parar. Não largo o meu mundo completo por nada e não deixo a minha vida ser vivida por mais ninguém. Sou forte, sou fraca, sou bonita, sou feia, sou doce, sou uma besta e raios me partam se não sou capaz de levar com tudo em cima.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Queria ser um bicho para comer o bicho que te come


Vou-te explicar com todas as letras para ver se tu percebes.

EU AMO-TE!!!

Não há ninguém neste mundo por quem te troque. Porque é que não acreditas em mim quando te digo isso? Quando eu estou em baixo é no teu colo que me vou sentar e quando estou em alta é contigo que vou ter aos pulos de alegria. Encontrei-te na altura em que mais precisava de ti, sem saber. Foi há tanto tempo e já se passou tanta coisa, já se passaram vidas inteiras desde que te obriguei a entrar na minha vida. Tens defeitos e eu estou longe de ser perfeita, mas ficámos juntos, não é verdade? Tanto se passou por nós e entre nós e não foi isso que acabou connosco. Eu aturo-te, tu aturas-me e nós somos à prova de bala. És o meu apoio, a minha âncora, a minha consciência, a minha razão e o meu coração. És tudo para mim, por isso não queiras ocupar um lugar em mim que não te pertence. Não queiras um cantinho só pra ti no meu coração porque o que tens lá para ti é uma mansão. Só tua. Não está alugada. É tua. Compraste-a com tudo que me deste e com a vida que ainda temos à nossa frente. Não está ninguém à porta à espera que tu saias ou que vás de férias para ocupar o teu lugar. A Dora vive na mansão ao lado da tua e se quisesses ter medo de alguém, mais valia teres dela. Mas a mansão dela já lá está há anos, e ela nem gosta da decoração da tua. Por ti faço tudo, deixo tudo, largo tudo e o fim do mundo parece-me perto se tu lá estiveres e precisares de mim. Percebeste agora?

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Porque às vezes há coisas que não devo dizer

Há palavras tão fortes. Fortes demais para serem ditas. Mas por serem tão fortes conseguem passar por todas as outras e ficar mesmo à saída da garganta. E esperam até me apanharem despercebida. E então saltam cá para fora juntamente com as outras, bem embrulhadas, mas se alguém estiver atento e se esse alguém tiver capacidade para isso, vai perceber. Vai perceber que disse não dá na altura certa. Na altura certa para mim, porque isso a minha cabeça sabe sempre, mesmo que o meu coração estejas aos gritos para voltar a tentar. Ele não sabe o que diz. Tem a memória curta e depois de dois dias não se lembra do que sofreu, do que me fez sofrer. De como me custou levantar quando só queria desaparecer. Se alguém estiver atento vai perceber que disse gosto de ti cedo demais. Cedo demais para se ouvir. Cedo demais para ser dito. Porque muitas vezes o meu coração prega-me partidas na sua pressa de amar. Por isso é cedo demais, é sempre cedo demais. Tão cedo que quero atrasar estas palavras para nunca mais, quero não ter vontade de as ter debaixo da língua, tão prontas para sair que não conseguem esperar na garganta. Há palavras tão fortes. Tão fortes que, enquanto as temos só para nós, nos sentimos presos, enquanto as temos cá dentro elas prendem-nos. E estão sempre a insinuar que se as deixarmos ir tudo correrá bem, vamos sentir-nos mais livres, vamos sentir-nos livres para as repetir e voltar a repetir até terem sido bem percebidas. Mas eu não as ouço. Finjo que não as ouço e faço de conta que não estão lá. Não quero saber delas e vou buscar outras palavras mais minhas amigas, que não exijam tanto de mim. Mas sei onde elas me vão encontrar. Sei onde elas estão à minha espera. Nos meus sonhos não vou conseguir escapar delas e vou ter que dizê-las. Vou dizê-las na altura certa e à pessoa certa. Gosto de ti e não dá.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Sem ninguém ver

Sabe-me bem o frio da minha cama quando me vou deitar no fim do dia. Sabe-me bem apenas por saber que em pouco tempo os cobertores vão lembrar-se das suas funções e vão aquecer-me o corpo. Primeiro as mãos, depois os braços, o tronco, as pernas e só no fim os pés. Acho que os meus cobertores sabem que só consigo adormecer quando tenho os pés quentes. Então aquecem-nos por último para que esteja acordada até que acabem o seu trabalho. Para que saiba que o fizeram e para que lhes possa estar grata. Acho que o fazem também para que possa gostar do frio da minha cama quando me vou deitar ao fim do dia, para que possa ter esse prazer. Para saber que agora estou fria, mas sabendo sempre que eles vêm em meu socorro. Porque vêm sempre, nunca falham. Acho que eles sabem o valor que dou a isso, a essa segurança, a essa confiança que posso ter neles. E é só por isso que me obrigam a ter consciência do seu trabalho, deixando-me com os pés frios até ao fim. Podia dizer-lhes que não é preciso, que eu acredito neles. Que eu acredito sempre. E nas noites em que estou mais cansada e já não consigo esperar pelos pés, deixo-me ir com a certeza que no dia seguinte quando acordar, os meus cobertores me aqueceram o coração durante a noite.

terça-feira, 5 de junho de 2007

A fotografia está na minha cabeça e o vestido era cor de rosa com flores

Pela primeira vez na minha vida senti a maternidade a chamar por mim. Apanhou-me a dormir e infiltrou-se num dos meus sonhos loucos (serão mesmo loucos?). Não é a primeira vez que sonho que estou grávida. Mas foi a primeira vez em que não acordei apavorada. Às vezes os meus sonhos parecem tão reais que muitas vezes acontece acordar a pensar que me vão prender porque acabei de matar alguém, ou descansada porque já fiz um certo trabalho, ou cheia de dores porque levei um enxerto de porrada. Quando acordei ontem, a pensar que estava grávida, demorei alguns segundos a perceber que tinha estado a sonhar. Mas tive tempo de pôr a mão na barriga. E tive também tempo para desejar que estivesse alguém daquele lado a sentir o calor da minha mão. Posso dizer com toda a certeza e com nenhuma margem para enganos, que foi a primeira vez que senti isto. Foi a primeira vez em que senti que gostava que isso acontecesse quando a altura fosse a certa. Isso foi no sábado à noite. Agora estou só à espera que passe.