quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Quem muito fala, pouco acerta

As coisas certas raramente acontecem ao mesmo tempo. A pessoa certa, a maneira certa e a altura certa não se conhecem e têm horários completamente diferentes. Aparecem quando lhes apetece, sem autorização e estão-se bem a cagar para o que nós queremos. Aparece a maneira certa, mas a pessoa não podia ser mais errada e a altura é péssima. Conhecemos a pessoa certa, mas, ironia (já dizia a Alanis...), a pessoa certa já conheceu a sua pessoa certa, o que faz com que a altura e a maneira sejam más. Sabemos que aquela pessoa iria fazer as coisas da maneira certa, a altura é certa, mas a pessoa, mais uma vez, é tudo menos a certa. A pergunta que se faz é: qual das coisas certas é a mais certa? Que é como quem diz, qual é o nível de prioridade nas coisas certas? É fácil responder depressa que a pessoa certa é mais importante que tudo, que assim que ela aparece na nossa vida devemos largar tudo e lutar. Eu não concordo. Não acho que se deva dar prioridade às coisas certas. Acho que se deve jogar pela maioria. A verdade é que a pessoa certa aparece sempre sozinha. A pessoa certa aparece sempre na altura errada e da pior maneira. A não ser que se tenha uma grande sorte. E devemos esperar por essa sorte? E por quanto tempo? Continuo a achar que a maioria é que está correcta. A altura é certa, a maneira é certa, a pessoa nem por isso. Paciência, todos temos defeitos. E mais tarde ou mais cedo, todos vamos acabar com uma pessoa com defeitos. Por muito que procuremos a pessoa certa. E mesmo que a encontremos, continuamos a estar com uma pessoa com defeitos. Qual é, então, a diferença?

domingo, 28 de janeiro de 2007

Se calhar até estou um bocadinho gorda...

O que é que nos faz ganhar peso? Somos nós, os hambúrgueres, o chocolate, a Coca-Cola, tudo o que comemos? O que nos faz desistir de comer decentemente, agarrar na primeira porcaria que nos parece comida e fingir que aquilo não nos vai engordar? Quando é que decidimos que não vale a pena ser magro, que ninguém repara muito nisso? O que nos faz pensar que não é por isso que vamos perder o encanto? O que nos faz pensar que mesmo assim vamos continuar a encantar? O que nos leva a olhar para a balança e pensar que é ela que está errada? O que nos levar a olhar para trás, quando éramos elegantes, e achar que não era por isso que éramos mais felizes? O que se passa que no fim do dia ainda temos fome, mesmo que tenhamos estado a comer o dia todo? Porque é que pensamos que seguramente o que nos vai satisfazer é o próximo bolo? Porque é que achamos que nunca mais são horas de comer ? Quando é que começamos a achar que nunca mais vão ser horas de comer? Quando é que ganhamos peso? E se o ganhamos, podemos voltar a perdê-lo?
Não devia ter fome, acabei de comer um cozido à portuguesa.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Podemos encolher sem nos tornarmos pequeninos

No final do dia, o que é que é realmente importante? Naquele bocadinho em que já vemos o sonho, mas ainda temos o olho no mundo de cá. Naquele bocadinho em que o cérebro já só vê a preto e branco e as imagens que nos dá não foram por nós pedidas. Nessa altura, no final do dia, o que é que é realmente importante? O que é que nós mostramos a nós mesmos sem a nossa autorização? O que é que tentamos dizer a nós mesmo quando pensávamos que já tínhamos dito tudo? Não é a relação. Não é, com certeza, aquela relação que ainda não deixa os filmes acabar, que ainda faz rir de coisas parvas e que nos vão irritar no futuro. Não. Não é isso que passa. Não é a afirmação. Não é, com certeza, a luta que travamos todo o dia para mostrarmos que existimos e como existimos tão bem, como somos orgulhosos de nós mesmos, mesmo que o outros não tenham reparado como somos belos, inteligentes e interessantes. Não. Não é isso que passa. Não é a casa que queremos comprar, não é a pessoa especial que queremos encontrar, não são os filhos perfeitos que queremos ter, não são os amigos todos, os que estão, os que já foram, os que ainda vão chegar. Não é, com certeza, isso que passa. O que passa são os nossos desejos mais ardentes, são os nossos maiores medos, é o desejo de amanhã poder ver aquelas pessoas que são realmente importantes, é o medo de amanhã não conseguirmos ver aquelas pessoas que são realmente importantes, é o desejo de sermos mesmo aquilo que queremos ser, é o medo de nunca lá chegar. O que passa é a saudade do pai, da mãe, da irmã, é o desejo de os ver outra vez, mas desta vez, que possa ser para sempre. O que passa é o escritório no edifício alto, a certeza de que aquele é o meu lugar e que ninguém o merecia mais que eu. O que passa é a certeza que temos o universo a conspirar a nosso favor. Porque fizemos por isso e só porque sim, só porque somos nós. O dia está quase a acabar e pergunto-me: no fim deste dia, o que vai ser realmente importante? Quando me deitar na cama, quando fechar os olhos, quando estiver pronta para sonhar, sei que vou ver o mesmo que vi no fim do dia de ontem. Porque, no fim do dia, o nosso coração não é grande, para que caiba toda a gente. Porque, no fim do dia, o nosso coração encolhe e fica do tamanho certo. Do tamanho certo para que só caiba o que é realmente importante.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Um resto de tudo

O que mais gosto nas festas são os restos. Os rissóis geladinhos no pequeno almoço do dia seguinte. A sobremesa de bolo de anos durante uma semana. Os litros de coca-cola na geleira. É por isso que gosto de fazer as festas em casa. Porque posso acordar de manhã e ainda sentir o resto do rebuliço no ar. Porque em todas as divisões há um resto de qualquer coisa que me faz lembrar. O resto do cartão rasgado com a excitação. O resto da loiça que ainda não foi lavada. Aquele resto de chão sujo onde o cansaço da vassoura já não conseguiu chegar. O resto dos jogos que ainda não foram guardados. O resto da sombra com brilhantes na cara que não se tirou para não quebrar o feitiço de beleza da noite anterior, e fazê-lo durar só mais um bocadinho. O resto de todos os cheiros e de todos os momentos que fizeram aquela festa ser especial. O resto de todos os agradecimentos que ficaram por fazer. Obrigada a todos por terem vindo, obrigada a todos por se terem divertido e por me terem divertido a mim, obrigada a todos pela atenção, obrigada a todos por todas as surpresas, obrigada a todos por todos os sentimentos, os vossos e os meus. Obrigada a todos por me mostrarem que há coisas que realmente valem a pena e que o resto é para esquecer. O que mais gosto nas festas são os restos. O resto de bolo de anos e este resto de felicidade. Este resto de perfeição.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

1/4 de século + 2

Obrigada pela primeira mensagem. Obrigada pela emoção. Obrigada pela luz apagada e pela vela acesa. Obrigada pelos parabéns tocados. Obrigada pelo pão de deus em estilo donut em cima das panquecas. Obrigada pelo interesse. Obrigada pelo conforto do pijama. Obrigada pelo voto de confiança e pelo elogio do livro. Obrigada pelo calor do cachecol. Obrigada pela chamada cedinho, cheia de carinho. Obrigada pela chamada logo que o cérebro acordou, nisto tens que acreditar, porque eu acredito. Obrigada pela chamada a meio da manhã, cheia de saudade. Obrigada pela companhia ao almoço, cheia de vontade de lá estar. Obrigada às capacidades que ainda tenho, que nunca pensei que tinha. Obrigada por receberes a minha chamada. Obrigada pelo orgulho na voz. Obrigada por seres o primeiro a quem quis ligar, paizinho. Obrigada por todas as chamadas da tarde, das tias, do primo, da irmã, da segunda mãe. Obrigada por quereres falar outra vez comigo. Obrigada pela piada sempre pronta, a fingir que não tens orgulho. Obrigada por continuares a acreditar em mim depois de tudo, mãezinha. Obrigada por mais um dia com saúde, com amor, com amigos, com família, com tudo que me dão, com tudo que acham que mereço. Obrigada a todos por estarem por aqui, sempre a olhar por mim, sempre a olhar para mim, a verem-me crescer só mais um bocadinho. Obrigada por tudo.