É assim que começa. Perco o chão. Perco a noção. Fico sem saber de onde vem tudo, sabendo bem que estou a criar tudo na minha cabeça, que estou a inventar tudo, para sentir o coração a bater, o sangue a fluir, a vida a percorrer-me as veias. Escolho a banda sonora, deixa-a entranhar na pele. Faço uma colecção de imagens meias reais, meias vividas, muito imaginadas. Antes que consiga perceber o que me estou a fazer, estou a viver num filme que eu própria produzi e realizei, onde sou a única protagonista, em que todos os outros são apenas figurantes apanhados sem saber como na minha demência, na minha necessidade de ter o volume no máximo. Do nada cria-se uma felicidade com vida própria que sem mais nem menos se transforma em dores reais, porque não há no mundo nada que se compare ao que quero sentir. E de repente já nada me chega, já nada me é indiferente, conversas de mensagens vazias já não me fazem acreditar que sou importante.Perco-me em mim e sinto a necessidade urgente de fugir da bolha que criei, já povoada por actores de livre arbítrio. Mas quando vejo que já não sou eu que controlo as saídas, perco a cabeça. Perco o norte no meu próprio mundo e procuro em vão onde me agarrar, mas a sensação de estar a cair outra vez é pungente e deixa-me sem ar. Começo a lutar como sei, a inflingir golpes às cegas, acertando exactamente onde quero com uma precisão cirúrgica. É assim que começa. Não tenho chão. Nem noção.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Escudos
É assim que começa. Perco o chão. Perco a noção. Fico sem saber de onde vem tudo, sabendo bem que estou a criar tudo na minha cabeça, que estou a inventar tudo, para sentir o coração a bater, o sangue a fluir, a vida a percorrer-me as veias. Escolho a banda sonora, deixa-a entranhar na pele. Faço uma colecção de imagens meias reais, meias vividas, muito imaginadas. Antes que consiga perceber o que me estou a fazer, estou a viver num filme que eu própria produzi e realizei, onde sou a única protagonista, em que todos os outros são apenas figurantes apanhados sem saber como na minha demência, na minha necessidade de ter o volume no máximo. Do nada cria-se uma felicidade com vida própria que sem mais nem menos se transforma em dores reais, porque não há no mundo nada que se compare ao que quero sentir. E de repente já nada me chega, já nada me é indiferente, conversas de mensagens vazias já não me fazem acreditar que sou importante.Perco-me em mim e sinto a necessidade urgente de fugir da bolha que criei, já povoada por actores de livre arbítrio. Mas quando vejo que já não sou eu que controlo as saídas, perco a cabeça. Perco o norte no meu próprio mundo e procuro em vão onde me agarrar, mas a sensação de estar a cair outra vez é pungente e deixa-me sem ar. Começo a lutar como sei, a inflingir golpes às cegas, acertando exactamente onde quero com uma precisão cirúrgica. É assim que começa. Não tenho chão. Nem noção.
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