quinta-feira, 19 de abril de 2007

Ainda bem que não me apetece escrever

Descobri neste preciso momento que só consigo escrever se estiver muito bem ou muito mal. É uma boa notícia. Porque não me apetece escrever. Quer dizer que não estou assim tão mal. Estou só um bocadinho cansada. Dói-me as pernas do pensamento, os braços do sentimento, o corpo todo do viver. Sinto-me um trapo. Velha como um trapo. Fora do prazo. Já não devia estar aqui. Alguém carregou no pause da minha vida. Ah, já me lembro, fui eu. Ao menos não carreguei no stop, menos mal... Carreguei no pause durante um bocadinho, depois, em vez de carregar no play outra vez, carreguei naquele botão que agora não me lembra o nome mas que é para andar devagarinho. Slow motion ou o que é. Tem graça, parece que estou sem pressa. Quem vê de fora é o que pensa. Se calhar é por isso que estou cansada. A minha vida passa devagarinho e eu vivo-a a mil à hora. Dou dez voltas à minha vida no tempo que a minha vida demora a dar-me a volta. Ou então, como me irrita a velocidade com que a minha vida se mexe, pego nela e carrego-a às costas. E que cansativo que isso é. Carregar com as cadeiras todas, com os amigos todos, os que precisam de mim, os que não precisam, os que fingem que não precisam, os que fingem que precisam, com as coisas que tomamos como certas mas que quando olhamos foram dar uma volta, com o amor tão difícil de definir hoje em dia, depois de tantas tentativas de o perceber e de outras tantas para o encontrar, com o apoio que não está lá, mas que não sei bem se devia estar, se eu devia esperar ou se devia, simplesmente, deixar andar. Cansada de agarrar os sentimentos. De controlá-los para parecer controlada. De os forçar a ficar para parecer forte. É que cansa ser uma pessoa que não somos. Desgasta a cabeça. E o sentimento é um bicho bem malhoso (não tinha ninguém a quem perguntar, deve estar mal escrito). Finge que nos está a obedecer mas quando estamos distraidos TRUFAS! No meio do metro. Bem fixe. E depois cansa estar a ser forte e bem disposta e engraçadinha e fofinha e outras inhas que tais logo a seguir. Exige muita da pessoa. Mas não se pode deitar cá para fora tudo de repente. Porque o mundo não está preparado para pessoas sinceras no sentir. Porque o mundo não está preparado para aceitar que pessoas fortes também precisam de colo e que pessoas fracas podem encher o peito e partir para a luta. Porque o mundo não está preparado para aceitar que pessoas fortes podem chorar e que pessoas fracas se sabem rir. Porque o mundo nunca vai perceber que não existem pessoas fortes nem pessoas fracas. Somos todos iguais. Só gerimos os nosso sentimentos de maneira diferente. Se lutamos contra o mundo é porque temos medo que o mundo nos consuma. E o medo não é para os fracos? Se choramos e pedimos ajuda é porque admitimos que sozinhos não somos capazes. E não é preciso muita força para o fazer? E, mais uma vez me sinto cansada. Cansada de sentir necessidade de rir quando quero chorar e de rir quando quero rir e de rir quando quero só estar por aqui. Cansada pra caraças, passando a expressão. Sim, apetece-me chorar porque estou triste. E depois?

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