quarta-feira, 2 de maio de 2007

Só mais um dia como qualquer outro

Sentimo-nos todos tão cansados, não é? São aquelas dorezinhas de cabeça, são aqueles incómodozinhos não sei aonde, aquelas sensaçõezinhas de cansaço que nos invadem depois de um dia que foi passado todo na mesma cadeira. Andamos a cair aos bocadinhos por aí. Parecemos um desfile de carros usados e em péssimo estado. Mas todos bem pintadinhos e bem lavadinhos e com os kilometrozinhos tirados que é para ninguém dar conta. E sorrimos. Mas entre nós, vemos tudo isso. Eu vejo o meu e os vossos. Olha para estes papéis que tenho que ler e saber para amanhã e dá-me o cansaço. Dói-me tudo. E é mesmo uma dor física. Aquelas dores que quando chegam dizemos "devo 'tar a chocar alguma". Mas não estou doente. Estou só sem fôlego para hoje mas sabendo claramente que amanhã já vai ser tarde demais. Não me lembro quando mudei. Quando perdi a garra. Quando perdi a vontade de mandar no meu destino e de decidir como as coisas iam ser. Devo ter olhado para o trabalho que isso dava e cansei-me. Deve ter-me começado a doer tudo. O corpo e a alma. Como se estivesse a chocar uma doença metafísica. Que me ataca as capacidades e se faz sentir nos ossos. Agora vou dormir. Vou dormir porque já não consigo ver caminho para a frente. Vou dormir na esperança de, durante o sono, encontrar num qualquer canto de mim, a vontade de lutar. Mas amanhã vou acordar com a sensação que já passou e que já não vou a tempo. Que devia ter aguentado mais tempo na noite anterior, que afinal nem tinha assim tanto sono. Porque amanhã de manhã já me esqueci das dores de hoje, porque já estou a ser obrigada a lidar com as dores de amanhã. Sim, ando aqui às voltas. Porque é mesmo assim que me sinto. Encurrala, mais uma vez. Sem saída, mais uma vez. Deslocada, mais uma vez. Perdida, outra vez. Sozinha, por opção. Porque ou nos dão força ou temos que ir buscá-la não sei aonde. Pegamos num bocado do coração que estava ocupado a amar e fazemos uma corda e trepamos para fora do buraco (linda imagem). Se não há colo sentamo-nos na cadeira de sempre e lutamos sozinhos. Luto sozinha, como sempre.

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