Onde está a porta? Onde está a porta que separa as disposições? Onde ela está, porque quero voltar a passar por ela. Devia ser fácil de encontrar, devia ser só virar-me para trás e ela estaria mesmo ali à minha frente. À minha espera. A dizer-me, vem, passa por mim e sorri outra vez, mas quero que sorrias sem pensar duas vezes, sem medo que achem o teu riso fácil. Mas o meu riso é fácil. É fácil e com ele é fácil mascarar outras coisas que sinto. Medo de não estar mesmo aqui. Medo que pensem que estou sempre aqui. Medo que não gostem mesmo de mim. Como se isso interessasse alguma coisa. Aquilo que vocês pensam de mim, aquilo que vocês sentem por mim. Dou várias voltas sobre mim mesma e continuo sem te encontrar, porta. Continua a falar. Continua a falar para poder seguir os teus conselhos até ti. Algures, nesta vida sem tempo definido, devo ter dado algum passo que me afastou de ti porque já não sou capaz de te encontrar. Vou ter que continuar aqui. Aqui onde o meu riso é falso e fácil. Aqui onde a minha disposição é controlada por vocês. Aqui onde só consigo ser um bocadinho de mim. Este bocadinho que até vos parece aceitável. Vou ter que ficar aqui até poder voltar a acender a luz e, nessa altura, poderei ver-te com clareza. Poderei ver o quanto estou longe de ti. E com sorte poderia reconhecer o caminho que fiz para te deixar tão longe, porta.
sábado, 3 de fevereiro de 2007
Ensaio sobre a estupidez de uma porta
Onde está a porta? Onde está a porta que separa as disposições? Onde ela está, porque quero voltar a passar por ela. Devia ser fácil de encontrar, devia ser só virar-me para trás e ela estaria mesmo ali à minha frente. À minha espera. A dizer-me, vem, passa por mim e sorri outra vez, mas quero que sorrias sem pensar duas vezes, sem medo que achem o teu riso fácil. Mas o meu riso é fácil. É fácil e com ele é fácil mascarar outras coisas que sinto. Medo de não estar mesmo aqui. Medo que pensem que estou sempre aqui. Medo que não gostem mesmo de mim. Como se isso interessasse alguma coisa. Aquilo que vocês pensam de mim, aquilo que vocês sentem por mim. Dou várias voltas sobre mim mesma e continuo sem te encontrar, porta. Continua a falar. Continua a falar para poder seguir os teus conselhos até ti. Algures, nesta vida sem tempo definido, devo ter dado algum passo que me afastou de ti porque já não sou capaz de te encontrar. Vou ter que continuar aqui. Aqui onde o meu riso é falso e fácil. Aqui onde a minha disposição é controlada por vocês. Aqui onde só consigo ser um bocadinho de mim. Este bocadinho que até vos parece aceitável. Vou ter que ficar aqui até poder voltar a acender a luz e, nessa altura, poderei ver-te com clareza. Poderei ver o quanto estou longe de ti. E com sorte poderia reconhecer o caminho que fiz para te deixar tão longe, porta.
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