domingo, 26 de novembro de 2006

Os amanhãs andam cheios de pressa

Se me perguntassem do que é que tenho mais medo, o mais provável era responder que era de répteis. Mas não é verdade. É verdade que morro de medo de cobras, lagartos e todos os seus primos chegados ou distantes, mas esse medo não se compara ao medo que tenho de um novo dia. Nada me assusta mais do que saber que assim que fechar os olhos e adormecer, estou a abrir a porta para outro dia. Um dia cheio de incertezas. Um dia cheio de coisas novas. Este dia que acabou é um dia seguro, porque já passou. Já não tem surpresas desagradáveis à minha espera. Já sobrevivi a ele. Mas quem me diz que vou sobreviver a amanhã? Amanhã tenho que tomar a decisão de me levantar da cama. Amanhã tenho que decidir o que vou vestir. Amanhã tenho que decidir se vou estudar, se vou trabalhar, se vou conversar para a esplanada, se quero companhia para o almoço, se quero companhia para o jantar, se quero ser simpática, se quero dizer umas piadas... Amanhã tenho que decidir como vou existir. Mas não é só isso. Amanhã vou ter que decidir se me levanto quando for derrubada. E não me apetece nada tomar essa decisão. Apetece-me ficar aqui deitadinha, sozinha, isolada. Sem ninguém para impressionar, sem nada para provar a ninguém. Mas não posso. Tenho que me levantar, encher o peito e obrigar o universo a conspirar a meu favor. Mas, se calhar, só amanhã, vou-me deixar vencer. Só desta vez. Só até ter forças outra vez. Se calhar, amanhã vou-me deixar ficar. Mas só desta vez.

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