domingo, 10 de dezembro de 2006

Cada traço, cada sombra, cada silêncio

Houve um dia qualquer que bati com a cabeça na mesa de cabeceira ao acordar e decidi que a melhor maneira de lidar com a natureza complicada das pessoas era sabê-las de cor. E tornei-me tão boa nisso que às vezes me chego a assustar com o tanto que sei de pessoas que conheço tão pouco. E se eu alguma vez pensei que isso me ia ajudar não podia estar mais enganada. Se dói quando nos dizem que não, dói ainda mais quando nos dizem que não mas nós estamos a ver que sim. E quando chegamos ao extremo de conhecer uma pessoa tão bem como ela própria, muitas vezes corremos o risco de vermos coisas nela mesmo antes dessa pessoa se aperceber. É um sentimento de impotência que não consigo descrever. Ver o caminho com clareza mas não poder pegar na mão para guiar. Eu não estou a ser pretensiosa. O que faço não é muito difícil. Na verdade, ficar a conhecer bem uma pessoa é uma coisa muito fácil. No meu caso passou mesmo a ser automático. Não consigo começar a conhecer uma pessoa sem ceder ao desejo de a saber de cor. Começa-se por coisas pequenas. A maneira como mexe no cabelo. O tique nervoso de bater com a caneta no papel enquanto pensa. Uma marca escondida. A maneira como fala de certas coisas. A maneira como reaje a certas situações. E, de repente, dou por mim a antecipar frases, a antecipar reacções. E a ficar espantada por acertar. Mas tudo isto não faz das pessoas menos complicadas. Não faz as pessoas mais fáceis de perceber. Só me deixa mais confusa ao vê-las tão contrárias ao que sentem. Só me deixa mais triste porque o gesto que corresponde ao olhar que me prendeu nunca vai chegar.

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